quarta-feira, 31 de dezembro de 2003

Esqueça a correria, é hora de lembrar

Como leitor assíduo do site, fiquei sabendo da promoção e resolvi escrever. Nem tanto pelos mimos que estão em jogo, mas sim pelo agradável exercício de lembrar coisas legais da infância e que estavam quase se apagando.

Vocês deveriam ganhar um Prêmio Nobel de alguma coisa por promover esse "revival" que tanto nos faz bem. Na correria que são nossos dias, tais lembranças que o Garotas ajuda a resgatar são como gotas de adoçante que suavizam o gosto amargo de coisas chatas da vida adulta. Acabei resgatando coisas que nem imaginei que conseguiria lembrar.

1) Relógio que troca pulseira
O Champion que trocava todos os acessórios era um hit. Ganhei um que usei por poucas semanas, já que fui covardemente assaltado por um garoto que era duas vezes o meu tamanho na porta da escola. Até hoje não uso relógio porque os dois que tive me deram problemas.

2) Bolo de fubá cremoso e suco de mamão com laranja
Minha mãe não era lá uma Ofélia, mas as poucas coisas que ela fazia de bom eram inesquecíveis. Que maravilha era chegar da escola e ter o bolo de fubá cremoso... Melhor ainda se junto estivesse aquele líquido avermelhado espumante, o tal suco de mamão com laranja. Como tudo que é bom dura pouco, o bolo minha mãe simplesmente esqueceu de como se faz. E o suco me empapuçou. Foi uma overdose tamanha que hoje em dia não posso nem sentir cheiro de mamão.

3) Brincadeiras de rua
Bons tempos aqueles em que podíamos brincar na rua sem correr o risco de ser atingido por um ônibus desgovernado, levar uma bala perdida ou sermos seqüestrados pra sabe-se lá quem. Pega-pega, esconde-esconde, mãe da mula, barra-manteiga... Para as "crianças" e pseudo-psicos de hoje, essas brincadeiras revelam nomes de duplo sentido ou passam mensagens veladas de preconceito (!!!).

4) Os amigos
Antes de sermos contaminados pelas agruras do mundo-cão, éramos crianças e pré-adolescentes sem (tanta) maldade e com uma lealdade absurda aos amigos. Depois crescemos e a expressão "melhor amigo" caiu em desuso. Tive três amigos que achei que estaríamos juntos pra toda vida. Tínhamos nossas diferenças, mas sabíamos perdoar. Cada um tomou seu rumo e não nos vemos nem mantemos contato há anos. Mas foram companheiros necessários e inesquecíveis naquele momento da vida. E acredito que eles pensem o mesmo, quando se lembram.

5) Preocupações (ou a falta de)
O chefe não pagou seu salário todo e ainda te dá trabalho pra casa? Seu aluguel está estourando e você não sabe como vai pagar? Ficou doente bem quando está sem plano de saúde? Esquece! Tirar nota boa, curtir três meses de férias no ano (quando os professores faziam greve), fazer lição de casa e ter a carteira de vacinação em dia. O que eu não daria pra ter só essas preocupações...

6) Dia de aniversário na Xuxa
Não lembro de ter contado isso pra alguém, mas como sei que meu texto não vai ser publicado, isso vai morrer entre nós. Sempre odiei acordar cedo, pois estudava a tarde. Mas todo dia 2 de setembro eu fazia questão de acordar às 8 horas da madrugada só pra ver a Xuxa cantando parabéns pra mim. Bah!

7) Balão Mágico
Não sei se hoje um programa como o Balão Mágico seria interessante, mas naquela época foi. Os apresentadores eram – ou pareciam ser – espontâneos, e aposto que foi esse o segredo do sucesso. Criança gosta de ver criança de verdade na tv, e não essas moças cheias de acessórios com aquele texto decorado e aquele espírito de competição desleal entre elas, uma querendo aparecer mais que a outra. Por isso não fazem sucesso. Não dá pra enganar criança.

8) Professora Dinorá da 2ª série
Se da segunda série em diante eu fui um ótimo aluno, com excelentes notas sem me tornar um nerd e até hoje gosto de ler, escrever, etc, devo a essa dedicada professora. Ela tratava os alunos como filhos, e não havia quem não a respeitasse, mesmo as crianças mais problemáticas. Foi tentando copiar a letra dela que fiquei com letra pedagógica (também vulgarmente chamada de letra “de minina"). Ela não sacrificava seus alunos em greves. Um exemplo. Difícil crer que ainda haja professoras assim.

9) Ultraseven, Ultraman, e, mais tarde, Caverna do Dragão
Na minha época, esses seriados japoneses já eram antigos, mas eram o máximo. Figurino tosco, capacetes gigantes e desnecessários, (d)efeitos especiais, monstros e enredos bizarros. Um milk-shake perfeito antes de ir à escola ou quando chegávamos em casa. Mais tarde, apareceu esse que é o melhor desenho já produzido. Caverna do Dragão tinha magia, personagens de fácil identificação e armas que a garotada queria ter. E qual foi a minha surpresa ao ler o final da história na internet anos mais tarde, que não chegou a ir ao ar, pois, diz a lenda, era over demais: o Mestre dos Magos seria o vilão, nossos heróis eram garotos muito ruins e por isso foram para aquele universo que era o inferno, a Uni era um ente a serviço do mau e o Vingador era o mocinho. Surpreendente!

10) Conversas no banheiro
Às vezes, eu e minha irmã mais nova ficávamos horas conversando no banheiro. Ficávamos um tempão falando sobre o resumo do dia, as amiguinhas dela e os meus amigos. Parece bobagem, mas hoje vejo o quanto nos dávamos bem. A gente cresce e tudo vira uma m*... Em vez de simplificar, só sabemos complicar as coisas.

Por Robson

às 05:39 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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