terça-feira, 30 de dezembro de 2003

Jovens gargalhadas

Nada supera o prazer de dar boas risadas na infância. Ou então de rir do que inocentemente fizemos durante essa fase da vida. Ao ler sobre a promoção Top 10 Infância do Garotas, em menos de dez minutos, lembrei de dez situações engraçadas da minha meninice. São pequenos fatos que não somem da memória, por mais que as décadas passem. Ainda bem!

Vamos a elas:

1) O “embrulhão”
Dentre as coisas inusitadas que eu gostava de fazer aos 5 anos, uma era prestar atenção nas conversas do meu avô ao telefone. Era o típico italiano: falava alto, gesticulava e praguejava. Certa feita, referindo-se a um parente que tentara passar-lhe a perna, o velho exclamou exaltado: “Ele é um embrulhão! É um embrulhão!”. Adorei o termo, apesar de não ter a menor idéia do significado. Naquele mesmo dia, meus pais receberam visitas. Ao chegar saltitante na sala de casa, dei de cara com uma tiazinha, que logo indagou: “Oi, menino bonito, quem é você?” A resposta foi taxativa: “Eu sou um embrulhão!”

2) Não era uma Brastemp...
Uma das coisas mais divertidas era aproveitar as caixas de eletrodomésticos para brincar de cabana, construção ou Forte Apache. Certa vez, meus pais compraram uma máquina de lavar. Fiquei exultante. Naquela caixa de papelão enorme cabiam facilmente eu e meu primo. E também os “diabinhos” que aparecem no ombro da gente, impulsionando à travessura. Pois bem, o primeiro (e último) uso da caixa foi como esconderijo, na calçada, sob a janela de uma vizinha chata. Plano genial: atirar feijões com um estilingue e se esconder sob a caixa, quietinhos. Só não esperávamos que a bruxa fosse desconfiar de algo tão natural quanto uma gigantesca caixa de papelão dando sopa na sarjeta. Pois é, o balde de água que veio lá de cima não só destruiu o fundo do caixote, como também ensopou a ambos. Definitivamente, não era uma Brastemp...

3) Alfredo, traz o Neve!
Minha mãe é um doce de pessoa, mas tem suas manias. Uma delas é de “arrumação”. Ela não suporta bagunça. Bem, lá estava eu com meus 4 anos de idade, anarquizando a sala de casa enquanto ela preparava um jantar especial, para uma visita importante – o chefe de meu pai ou algo do tipo. Atrasada e atrapalhada, ela já havia me dado umas três broncas. E nada de eu parar com a zoeira na sala. Foi aí que ela perdeu a paciência e me deu um tapa no “bumbum”, acompanhado da inevitável frase: “Vai já pro seu quarto!”. Não fui. Pelo contrário, fui ao banheiro. Segurei a ponta do rolo de papel higiênico e saí passeando pela casa... Sim, foram 40 metros de Papel Primavera (ou Neve, talvez) entremeando móveis, armários, poltronas e sofás. Não preciso descrever a cara de horror da pobre coitada quando descobriu a travessura, minutos antes de a visita chegar. E nem a marca de chinelo que ficou no meu “bumbum” naquela noite!

4) Falou o que quis, ouviu o que devia!
Criança pode ser inocente, mas não é burra. Pelo menos eu não era. E, por isso, sempre odiei frases idiotas que se costuma dizer para quem está na tenra idade. Uma vez, uma conhecida da minha mãe nos encontrou na rua, depois de anos sem nos ver. Eu devia ter uns 8 anos. Ela disparou a inteligentíssima asserção: “Como você tá grande!”. E eu respondi na lata: “Como você tá gorda!”.

5) Deus protege os bêbados
Zoar com bêbado é sacanagemi. Mas quando se tem 10 anos, é perdoável. Havia na minha rua um tiozinho bebum e pontual. Saía do bar sempre às 18h e ia pra casa. Um dia, decidimos pregar uma peça no ébrio, estendendo pedaços de linha de costura entre os postes da rua e os portões das casas, na altura do joelho. Calma, gente! A linha era fina e quebrava fácil – não havia perigo de um tropeção mais grave. Fizemos isso em quatro postes e, quando preparávamos o quinto, o bêbado despontou na esquina – alguns minutos mais cedo que o usual. Assim, abortamos o último poste do quarteirão e nos escondemos para ver o resultado. Ele tropeçou no primeiro. Parou, olhou e fez cara de quem não entendeu nada... coçou a cabeça e voltou a andar. Repetiu a cena no segundo. Cambaleou de novo no terceiro. No quarto poste, idem. Quando chegou ao quinto e último – aquele que não tinha nada –, parou, pensou e, cuidadosamente, levantou uma perna e depois a outra, vencendo triunfalmente o obstáculo. Inexistente, por sinal.

6) Ás no volante
Eu devia ter uns 10 ou 11 anos, mas andava com uma turminha mais velha, na faixa dos 15 ou 16 – aquela idade em que todo mundo quer pegar o carro do pai escondido para impressionar “as mina”. Foi isso que o Zé (bem, não citemos nomes) quis fazer com o lindíssimo Maverick 78 do pai na frente da turma. Ele tirou o carro da garagem, cheio de pose, e saiu arrancando. Deu a volta no quarteirão e veio guardar o carro. A manobra final foi um espetáculo. Fez a curva para entrar na garagem em alta velocidade, com o braço pra fora e cara de mal, olhando para a galera... E, por isso mesmo, não percebeu que o portão estava fechado. Buummm! Lá se foi a frente do Maveco. E também a cara de malvado do Zé. Enquanto a turma se esborrachava de rir.

7) Mico mineiro no mar
Era uma diversão receber minhas primas de Minas Gerais nas férias, principalmente quando estávamos na praia, em São Vicente. Afinal, eram hilariantes as cenas, digamos, pouco usuais que elas proporcionavam num ambiente tão desconhecido. Certa vez, meu pai comprou um bote inflável, desses que você pode esvaziar e guardar na garagem. Estávamos no elevador lotado, descendo para um passeio no barquinho, quando uma das primas mineiras dispara em alto e bom mineirêss: “Gente, nós vamos andar no NAVIO do tio Walter!!!”. A gargalhada dos vizinhos só não foi maior do que a vergonha da coitada quando lhe explicaram a diferença.

8) "Herr" Cirênio!
Meu tio Cirênio era uma pessoa singular. A começar pelo nome. Era um sujeito aparentemente sério e sisudo, mas com insuperável senso de humor e cinismo a la Monty Python. Deveria ter sido ator, mas preferiu ser policial. Em São Vicente, ele me levava para passear quando fomos abordados por um verborrágico vendedor de caranguejos. Enquanto o caiçara discorria sem parar sobre o frescor dos crustáceos e como se podia prepará-los, meu tio apenas olhava fixamente o homem, sem dizer uma palavra. Ao fim de alguns minutos, o pescador se cansou de tagarelar e perguntou: “E aí, doutor, vai levar quantos?”. A resposta de meu tio foi desconcertante – e hilariante: “Sprechen sie deutsch???”

9) Elevador escatológico
Imaginem uma jornada de 10 horas de carro entre São Paulo e Cabo Frio, num calor de matar. Nessas condições, quando eu tinha uns 9 anos, bebi litros e mais litros de água. Ao chegar ao hotel, a visão de uma mesa de pebolim fez eu e meu pai largarmos rapidamente as malas no quarto e começar uma partida. Bola pra lá, bola pra cá e, de repente, percebi que não dava mais para segurar o pipi acumulado na longa viagem. Saí correndo, peguei o elevador e desci no sexto andar, em busca do meu quarto, o 604. Mas não tinha 604, e sim apenas 603, 605, 607... Eu estava no bloco errado! O bloco ímpar! Voltei “sambando” ao elevador e, ao entrar, dei graças aos céus por estar vazio. Não dava mais tempo e me aliviei lá mesmo, no cantinho. E o pior (ou melhor) é que um providencial tapete de piaçava escondia tudo! Exceto o “cheirinho estranho”. Nos dias seguintes, eu tinha que me segurar para não “mijar de rir” toda vez que algum gringo saía do dito cujo fazendo cara feia e torcendo o nariz...

10) Felicidade em 12 cores, com 10 anos de atraso
Este último momento não foi nada divertido. Divertido foi o que aconteceu anos depois, já na adolescência. Quando tinha 6 anos, adorava desenhar, e um dos meus sonhos era ter um estojo de canetinhas coloridas Silvapen. Foram meses insistindo, até que um dia minha mãe finalmente cedeu e comprou aquele pacotinho com 12 bastões cheios de tinta e felicidade. Eu nem sequer tinha aberto o estojo quando minha irmã – que normalmente era um doce de pessoa –, teve um repente de chatice e começou a querer tomar a preciosidade das minhas mãos. Na briga, joguei o estojo para cima de uma estante de livros, achando que ela desistiria de pegá-lo. Ela desistiu. E eu também: o estojo, ainda fechado, caiu por trás do móvel, no vão entre ele e a parede. À noite, meu pai confirmou ser impossível resgatá-lo, já que a estante era fixa. Tentando disfarçar, chorei como nunca naquela madrugada. Passaram-se exatos 10 anos até o dia em que, numa grande reforma, a tal estante foi retirada da parede. Eu acompanhei ansioso o trabalho dos pedreiros e, com um brilho nos olhos e uma sensação de felicidade sem igual, achei o tal estojinho Silvapen. Ninguém entendia porque eu gargalhava, e eu também não quis explicar. As canetas, é claro, estavam quase todas secas. A única que ainda funcionava me acompanhou por mais de um ano, até a época do cursinho, quando a perdi de vez. Agora, sim, na hora certa, sem choro nem tristeza.

Por Paulo

às 06:22 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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· Flá Wonka
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