terça-feira, 30 de dezembro de 2003

Saldo com a terapia

Há uma série de coisas da minha infância (quer dizer, na verdade são só dez, porque foi esse o número que as garotas pediram) que direta ou indiretamente me causaram traumas futuros. Não dizem que é durante a infância que construímos nossa personalidade? Então, mamães: quem sabe seus filhos não farão análise daqui alguns anos só por causa do Picachu? É uma possibilidade!

Segue então a lista dos responsáveis pelos meus traumas infantis – e quantos anos de terapia serão necessários para curar cada um deles.

10) O pirocóptero
Vocês se lembram de um pirulito que vinha com um brinquedinho colorido e comprido, que tinha duas 'hélices' em cima?! Aparentemente inofensivo, e até bastante educativo: "Gira ele na mão, filha, rápido! Rápido!" E ele saía voando. Caía uns dois metros adiante, mas voava um bocado, e era essa a graça da brincadeira. Até o dito-cujo ir parar no telhado. Alguém subia para resgatá-lo, claro, mas sabe como é a relação brinquedo-telhado: uma vez lá em cima, já era.
São necessários uns seis meses de terapia para superar isso

9) O último episódio (inexistente) da Caverna do Dragão
Imagine se, sem mais nem menos, "Friends" acabasse. E você não saberia se a Rachel ficou com o Ross ou com o Joey, se o Chandler e a Monica conseguiram ter um filho e se a Phoebe conseguiu ou não acertar as contas com a irmã, Ursula. Horrível, não?! Agora imagine esse mesmo impacto numa criança de cinco anos. Muito, muito pior.
Mais 10 anos de terapia

8) Nascer morena
Todas as apresentadoras eram loiras (menos a Mara Maravilha, mas me diga: quem é que gostava dela?). Sua priminha, também loira, era quem era chamada para ser daminha de honra de todos os casamentos da família. Você, não. Porque você era morena. A She-Ra era loira. As princesas da Disney eram também todas loiras. As Barbies eram todas loiras. E as morenas? As morenas eram sempre as bruxas, as vilãs, as malvadas!
Mais 1 ano e meio de terapia

7) A botinha ortopédica
Eu não queria aquelas botas, eu queria uma branca, que chegasse até o joelho e fosse triangular em cima, igual à da Xuxa! Talvez se minha mãe tivesse dito que aquela bota não era acessório e sim recomendação do médico, eu não a odiaria tanto (a bota, não a minha mãe, que fique bem claro). Mas ela disse? Não, ela não disse.
Mais 3 anos de terapia

6) O bolo em forma de violão
Em todo aniversário, o bolo era em forma de violão. Incrível. E sempre tinha um chocolate em cima, para fazer as vezes de... hum, como é mesmo o nome daquela coisa que segura as cordas? Então. Todo mundo pedia: "ô Tia! Me dá este pedaço aqui, ó!" – e apontava para o chocolate. Eu nunca recebi o tal pedaço, e isso era muito frustrante. Eu ficava olhando para o pratinho de todo mundo para ver quem seria o felizardo. Como demorava muito, eu acabava desistindo e comendo meu pedaço de bolo, que nem bom era mais (Ei, acho que as outras crianças também não ganharam o cobiçado pedaço. Afinal, quem raios comia os chocolates?).
Mais 2 anos de terapia

5) A festinha de aniversário na escola
Parece que todo mundo teve, menos eu. A cada ano eu esperava, esperava... E a surpresa era só em casa. Todos os amiguinhos e parentes marcaram presença e foram festinhas bem legais... Mas por que não na escola, poxa?!
Mais 7 anos de terapia

4) O uniforme
Falando em escola, acho que toda menininha quer ter um uniforme brega, tipo escola católica, pelo menos uma vez na vida. Saia plissada, camisa e meia 3/4. Mas a minha escolinha era modernosa, já tinha uniformes de helanca, num amarelo-ovo fantástico.
Mais 4 anos de terapia

3) O gato atropelado
Tá, quase todo mundo já passou por isso, mas... Eu amava aquele gato.
Mais 5 anos de terapia

2) A Vovó Mafalda
Todos queriam uma avó como aquela, que contava piadinhas legais, passava desenhos e ainda era neutra na batalha das loiras x morenas – afinal, tinha os cabelos brancos. Mas, quando eu soube que ela era homem... Ó, meu Deus, que decepção!
Mais 6 anos e de terapia

1) O sumiço dos biscoitos Foffy
Eis o topo da lista, o item mais traumático. Na escolinha, todo mundo tirava as mesmas coisas da lancheira: uma garrafinha térmica e um pacote de Foffy, os biscoitos em forma de ursinho. Pacote vermelho, chocolate. Pacote azul, baunilha. E tinha todo um ritual para comer os ursinhos. Primeiro as patinhas, depois a cabeça e por último a barriguinha. Era também a minha mentira infantil: eu dizia para todo mundo que minha mãe trabalhava na fábrica de Foffy, e ela podia trazer para casa quantos pacotes eu quisesse. Todas as crianças me invejavam, afinal Foffy era O biscoito. Até que, sem mais nem menos, ele sumiu. Saiu do mercado, do nada. Um mistério. Eu comeria Foffy até hoje, porque era algo realmente bom! E me pergunto: como, como as crianças de hoje conseguem viver sem Foffy?
Mais 20 anos de terapia

Somando tudo = Preciso procurar um terapeuta JÁ, pois para superar todos os meus traumas de infância são necessários 59 anos de terapia intensiva!

Por Marjorie

às 01:19 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold