sexta-feira, 26 de dezembro de 2003

Bom, mas bom mesmo, é...

Segundo o Luis Fernando Veríssimo, o que diferencia os diversos estágios da vida de uma pessoa é o que ela, a cada idade, considera bom mesmo. Bom mesmo, no caso, não é o que é legal, bacana, mas o que existe de melhor na vida, o prazer supremo. Assim, enquanto para um bebê bom mesmo
deve ser um bom arroto depois da papinha, para um velhinho centenário bom mesmo pode ser uma poltrona reclinável e meias de lã.

Seguindo essa definição, para mim, infância é aquela fase que vai desde o "Bom mesmo é peito de mãe" até o "Bom mesmo é o peito de qualquer outra mulher". Porque na adolescência bom mesmo passa a ser sexo, o resto é secundário. É a fase do 'de longe'. (Por exemplo: Bom mesmo é mulher e, em segundo lugar, de longe, dirigir uma Ferrari).

De qualquer forma, a infância é fase da vida de qualquer pessoa em que a lista do que é bom mesmo é mais comprida, tão grande que é quase impossível dizer o que era melhor. É também a fase que provavelmente deixa mais lembranças felizes na memória – e é por isso que um som, um gosto, ou um cheiro da infância faz a gente sentir um prazer meio bobo, que não dá para explicar.

Então vamos lá. Eu era uma criança feliz nos anos oitenta e para mim bom, mas bom MESMO era...

10) Aula livre
Eu era cdf e, como tal, nunca cheguei a pular o muro da escola para matar aula. Mas como toda criança saudável, achava ótimo quando chegava na escola e descobria que não ia ter aula por causa da grave de ônibus ou porque, que me perdoe a comoção nacional, o Tancredo morreu.

9) Andar de bicicleta
Nesse caso, bom, mas bom mesmo, é principalmente a primeira vez. Quando depois de umas 28 quedas você finalmente descobre que consegue ficar equilibrado na bike sem as rodinhas, e sem se esborrachar na primeira curva.

8) Ir ao Planetário
Eu já achava a sala de entrada do Planetário de São Paulo divertida, mas o que eu mais gostava era quando, já lá dentro, sentado na poltrona, o narrador à lá Sid Moreira dizia que as nuvens, a poluição e a claridade da cidade estavam sendo lentamente retiradas e o teto ficava coalhado de pontinhos brilhantes.

7) Picolé na praia
Hoje em dia eu nem sou muito chegado em praia, mas quando era criança eu adorava tudo: futebol na areia, pegar jacaré, guerrinha de bola de areia molhada, milho, amendoim, biscoito praiano, bijou, ficar com os miolos torrando no sol... E o Chicabon na praia era muito mais gostoso.

6) Ler revistinha
Revistinha dispensa comentários, mas que as traças me ajudem, fica aqui o registro em homenagem a meus personagens prediletos: o Tio Patinhas, o Donald, o Gastão, a Turma da Mônica (todos, menos o Bidu, o Bugu e o Jotalhão), o Zero, a Brotoeja, a Tininha, o Riquinho, o Mortadelo e o Salaminho, e claro, o Asterix e o Obelix (mas esses eram de revistinha de luxo).

5) Desenho na TV
Eu realmente acredito até hoje que desenho bom mesmo é aquele que faz a pessoa dar risadas (como o Pica-pau, os Jetsons ou os Impossíveis) e não aqueles desenhos que fazem a criança sair dando berros em japonês e pontapés na canela do primeiro incauto que cruzar na sua frente. Mas a
verdade é que quando era pequeno eu também adorava o Sawamu e seu salto no vácuo com joelhada mortal (ele se julgava o demolidoooooor!).

4) Salgadinho
Principalmente se acompanhado de um dos dois itens acima, o salgadinho tinha fases. Num mês o predileto era o Cebolitos, no outro o Doritos, depois o Cheetos ou até o Skiny. Aliás, alguns salgadinhos continham um ingrediente que me intriga até hoje: o aroma natural. Como será que os
moços lá da fábrica conseguem colocar somente o cheiro do produto dentro do saquinho?

3) Loja de brinquedo que deixa mexer
Se você conseguisse encontrar um adulto com paciência infinita, ou querendo pagar alguma promessa, esse era com certeza um programa que garantia horas de diversão. Hoje, as lojas de brinquedo teimam em não deixar as crianças mexerem nos produtos. Mas como alguém pode comprar o troço sem antes vê-lo com as mãos? E se quebrar, azar, vocês têm mais um monte iguais aí mesmo...

2) Fliperama
Não estamos falando da era pré-playstation, mas da era pré-atari, quando videogame dentro de casa era um negócio chamado telejogo, em que um pontinho ficava dançando entre dois tracinhos e fazendo poing. Portanto, o máximo em diversão eletrônica era subir num banquinho e ficar jogando
a bolinha com os flippers sem deixar ela cair. Geminni 2000, Cavaleiro Negro, Vortex... Tinha uma máquina que até falava! (Fire action, fire action).

1) Colo de mãe
Ou tem algum outro lugar onde você já se sentiu mais seguro? Um lugar melhor para rir ou chorar, para se sentir mais protegido de todos os medos?

Eu sei, eu sei. Deixei um montão de coisas de fora como a piscina do clube (que é totalmente diferente da praia, ou você acha que golfinho e boto é tudo a mesma coisa?), a montanha-russa do Playcenter, disquinho com historinha infantil... Mas que diabos! O que eu posso fazer se essas
garotas tem fixação com o número 10?

Por J.M.

às 01:15 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold