sexta-feira, 26 de dezembro de 2003

Quem nasce Sinhazinha...

...não morre Mademoiselle

São estranhas e estressantes essa correria e competitividade que estão sempre presentes nas grandes cidades. As pessoas tentando ser o melhor, ou parecer o melhor. Preocupadas com a aparência, o carro e o cargo que ocupam. Querendo passar uma imagem que, às vezes, é pura fachada – e assim acabam escondendo suas verdadeiras origens.

Eu mesma sou um exemplo disso. Nesses dez anos morando em São Paulo fiquei tentando ser elegante, tentando me equilibrar num salto número sete. Fico preocupada com que roupa eu vou, se está boa, se minha maquiagem está legal, se meu cabelo está bonito. Fico tentando esconder aquela menina do interior no Paraná. E toda vez que chega o mês de junho tenho dez motivos para querer ter meus seis anos de volta...

10) Simpatias
O dia 12 de junho já era festa por ser a data do meu aniversário. Divertia-me mais ainda ao ver minha tia e suas amigas correndo de lá pra cá para saberem com que iriam se casar. E haja no pé de bananeira da minha casa, solicitações da aliança da mamãe para afundarem num copo com água, flores, mel, papéis cor-de-rosa, bacia com água e santos lavados e virados de cabeça para baixo.

9) Santos
Sem eles não haveria tanta correria no sexto mês do ano. Mas é por causa de três figuras que junho é regado por tantas festas. Primeiro Antônio, o casamenteiro que no dia doze sofre nas mãos das solteironas. Depois no dia vinte e quatro vem o João que foi decapitado só para satisfazer a vontade de Salomé (filha do Rei Herodes). E por fim, no dia vinte e nove Pedro, o guardião das chaves da porta do céu e fundador da Igreja.

8) Brincadeiras
Nesses trinta dias são realizadas muitas brincadeiras engraçadas. Nunca vi alguém conseguir pegar a prenda ou dinheiro no pau-de-sebo. Em compensação, vi algumas pessoas se queimarem pulando a fogueira. Sempre tive dificuldade em acertar o alvo e as argolas para ganhar um brinde. Por outro lado, nunca saia de mãos vazias da pescaria. Na cadeia podíamos prender alguém que estava atrapalhando nossa festa. E por fim o correio elegante – minha brincadeira predileta.

7) Cantigas
Aquelas musiquinhas grudavam na nossa mente como chiclete gruda na sola do sapato. “Capelinha de melão/ é de São João/ é de cravo, é de rosa/ é de manjericão”. Outra que me lembro, “Cai, cai, balão/ Cai, cai, balão/ aqui na minha mão”. É curioso como só São João e o tal balão inspiravam os compositores, pois só me recordo de músicas com esses dois temas. Mas mesmo assim eu gostava muito de cantá-las.

6) Quitutes
Somos agraciados pela culinária das festas juninas. São tantas aparições e invenções que fica difícil escolher no meio de tanta diversidade. Do milho verde temos alguns derivados como o bolo, canjica, curau e pipoca. Os doces de leite, pé-de-moleque, cocada, abóbora, maça e uva do amor, e a paçoca são de dar água na boca. E uma das preciosidades que me faz lembrar as festas na minha escola é o pinhão como é bom! Só é ruim descasá-lo.

5) Decoração
A ornamentação da minha escola nessa época era uma festa à parte. O pátio e a sala de aula tornavam-se mágicos. Cheios de cores e bandeirinhas que, muitas vezes, os próprios alunos fabricavam. Carinhas de caipira eram pintadas nas lâmpadas dos corredores internos e cercas eram levantadas nos externos. Bonecos de palhas do tamanho de um adulto ficavam na entrada principal para receber as pessoas. Tornava-se um ambiente diferente e alegre. Era muito divertido estar lá!

4) Quadrilha
Quando a professora anunciava que iam iniciar-se os ensaios para a tal dança, começava a correria geral. Também, era a grande oportunidade de formarmos par com quem gostávamos. Alguns tímidos, outros nem tanto. Mas acho que no fundo todos queriam ir ensaiar para não assistirem as aulas, pois era no mesmo horário das torturas de matemática, ciência e português. E já que não seríamos prejudicados por perder alguns minutos, preferíamos estar dançando, é claro!

3) Chapéu com trancinhas
Eu adorava esse acessório. Como minha mãe cortou meus longos cabelos naquela época, a adorável invenção era o único jeito de sentir novamente aquela sensação dos extensos fios trançados, impecavelmente, abaixo dos ombros. Sem contar as opções. Tinha cabelo para escolher: preto, loiro e ruivo. Pedia logo um de cada. E desfilava meus penteados novos durante os três dias de festança!

2) Vestido
Muitas meninas adoravam e aguardavam ansiosamente para usar a roupa de festa. O minha era confeccionada pela vovó. Ela fazia o vestido e a “calçola” que usava por baixo. Meses antes, mina avó já começava o trabalho para atender a todas as netas. Lembro-me de um azul estampado com umas flores que usei num daqueles anos. Ela caprichava tanto que até encapava a aba do chapéu para ficar igual ao vestido – como ela dizia, era “para a neta não fazer feio na festa”!

1) Sinhazinha
Naquela época o mais esperado era a escolha da menina que ia representar a festa da escola nos três dias: o famoso concurso da Sinhazinha. Levava quem vendia o maior número de votos – que poderiam ser negociados por dinheiro ou prenda... Tudo era destinado à festa. Num dos anos, fui a escolhida para representar minha sala e de quebra acabei levando o concurso. E, graças às boas prendas que meu avô doou, pude usufruir os três dias com muita glória.

Naquele tempo, em vez de me preocupar com meu visual, eu apenas me preocupava em conseguir a maior quantidade de vacas, porcos, galinhas e dinheiro para a escola. Preocupava-me com meu vestido de chita vermelho e branco, lindo, que iria usar no dia da festa. E nos demais só usava shorts camiseta e conga.

Fico tentando esconder aquela verdadeira paranaense do “pé vermelho” e da “barriga verde”. Mas acho que não consigo, pois a cada ano que chega o mês de junho quero ir para minha cidade, viver a magia da Festa Junina e ver se lá ainda “fabricam sinhazinhas”.

Por Ângela

às 09:27 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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