quinta-feira, 25 de dezembro de 2003

Uma infância em madeixas

Eles caminhavam soberanos pelas ruas. Uma geração inteira de jovens, vestindo roupas coloridas, quadriculadas e descombinantes. O mundo pop fervia, e depois daquela década nada nunca mais foi o mesmo. Jaquetas jeans desfiadas eram vestidas com calças de couro pretas e justas, sapatos de bico fino, e camisas amarelas. E, acima de tudo isso, reinavam os penteados.

Tolo era aquele que tinha um cabelo normal. Começou a onda das tinturas super coloridas. Mullets desfilavam a glória que tinham alcançado seja no pop-rock do Bon Jovi, ou na melodia sertaneja de Chitãozinho e Xororó. Ondas capilares esvoaçantes mostravam o poder dos cabelos crespos. O penteado punk tinha adquirido novas colorações e novos formatos. Tudo em nome do pop, da rebeldia.

Não éramos diferentes, o auto-proclamado Esquadrão Trovão Azul. Andávamos pelas ruas, os 15, e nossas camisetas azul-céu, com nossas bicicletas cheias de pedaços de copos plásticos nas rodas para simular o barulho de motos, fechando avenidas, fazendo manobras, parando nos sinais de trânsito e bloqueando-os.

E, em nossas cabeças, uma homenagem a nossos astros. E aqui vão os 10 cabelos mais estranhos do Esquadrão Trovão Azul.

10) Joana e sua xuquinhas loiras
A Xuxa estava na TV – apesar de haver tirado do ar a Turma do Balão Mágico, para nossa tristeza – e fazia sucesso. Joana, loira fanática pela Rainha dos Baixinhos, usava visual xuquinhas com prendedores rosas, para combinar com a sua bicicleta Ceci.

9) Rodriguinho e o Ricky Martin
Menudos ainda eram febre, e para o desespero de pessoas como eu, seus fãs não eram apenas garotas. E lá ia Rodriguinho, numa Monark, com o cabelo cheio um pouco acima dos ombros, entoando "Canta, dança, sem parar/ pula, grita, ôôôô/ Não se reprima, não se reprima” – para nossa tristeza.

8) Vitor, o tocador de viola caipira
Tava no sangue do rapaz, vindo diretamente de Goiás, ser fã de música sertaneja. E seus cabelos espetados em cima da cabeça e compridos até o ombro, além de abençoados com mullets, não nos deixavam esquecer de que ele era fã de Chitãozinho e Xororó.

7) Sol, o caçula e sua juba
Não, não tem nada a ver com "Juba e Lula". Juba era o carinhoso apelido para o meu cabelo. Lembrando bem os Jacksons Five, minha cabeleira era uma homenagem ao ídolo da época, Michael Jackson.

6) Débora, "We don't need another hero"
Entoando em um inglês macarrônico que só uma jovem de 10 anos sabe pronunciar, Débora ostentava sua longa cabeleira loira parecida com a da Tina Turner. Ela realmente chamava a atenção. E sabia o filme de cabeça.

5) Nélio, "o capeta"
O Heavy Metal já era muito mal falado. E o Iron ainda tinha um álbum intitulado "The Nuber of the Beast". Pronto, logo isso se tornou coisa do demônio, pelo menos para a grande massa. Porém, não impediu o Nélio de descolorir o cabelo e tentar parecer com o Steve Haris.

4) Guilherme "McGyver"
Snif, eu nunca tive mullets muito bons, principalmente por causa do meu cabelo black power. Mas Digão tinha. E ele desfilava as madeixas do nosso intrépido engenheiro, físico, químico, psicólogo...

3) Danilo, "Step by Step"
Sim, ele cantava "Dez pastéis, 1 kibêêêê, uma coca e um guaraná". E nós ríamos da letra bagunçada e de sua cabeça raspada na lateral com um topete em cima cheio de gel.

2) Thiago, "sim, eu chamo a atenção de todos"
Isso era o comecinho da década de 90, e lá estávamos nós, lembrando a todos que os anos 80 não haviam terminado, pelo menos não em nossas cabeças. Lá estava Thiago e seu cabelo mezzo comprimido, mezzo repicado, mezzo black, mezzo liso, claramente no estilo do Kurt Valaquen do Information Society.

1) Mariana, "minha filha, o que você fez com o seu cabelo?"
Infelizmente foi um corte de apenas um dia, mas merece o primeiro lugar. Ela tinha, na época, 11 anos, saiu sem a mãe saber para o cabeleireiro. Na bolsa da Barbie, levava uma foto da Cyndi Lauper e dinheiro para o corte. Voltou e espantou todos da rua – mas recebeu os nossos cumprimentos.

Por Sol

às 05:11 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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