quarta-feira, 24 de dezembro de 2003

O Tempo nos prega peças. De playmobil.

Primeiro colocado

A vida pode ser comparada a um passeio de montanha-russa. A diferença para uma montanha-russa de verdade é que nessa construção imaginária o carrinho não termina o passeio no mesmo ponto onde começou – e a gente não pode repetir a volta. Muito pelo contrário. O comum é que lá pelas tantas o carrinho despenque sem aviso, numa curva qualquer, conosco dentro. E acabou-se. Não adianta processar o dono do parque.

Acho que os anos de infância e adolescência correspondem à subida da montanha-russa. Parte-se do nível mais baixo, vai-se até o topo e o resto é só decida. No meu caso, essa subida da montanha-russa são os anos oitenta. Ora, em 1980 eu tinha nove anos, e em 1990 tinha dezenove. Quer passeio mais vertiginoso que esse?

Numa ponta eu era um pirralho que mal contabilizava quatro anos de memórias nítidas, e na outra, já era universitário, tinha um Chevette e uma namorada. Quando é que a gente vai passar por tanta ebulição de novo em tão pouco tempo?

Sei que os anos que nos restam certamente reservam surpresas alegres ou tristes, mas percebam que tudo tende para uma rotina previsível: carreira, casamento, filhos, netos. Mais parecido com um trecho suave em declive do que com um loop.

Bom, então é hora de elaborar meu Top 10, que são justamente os anos oitenta, ano a ano, na minha tosca e distorcida visão. Lembrando sempre que todo santo teve um grande passado e que todo pecador tem um grande futuro.

1980
Mataram o John Lennon. Atentado contra o Reagan. Olimpíadas de Moscou. Eu morava em Quixadá e minha maior preocupação era como subir na Pedra do Cruzeiro, com uns 400 metros de altitude. Consegui. Mas quase que choro pra voltar. Manja o gato que sobe na árvore e não sabe como descer? É por aí. E eu odiava minha professora de reforço de matemática. Ela cheirava a laquê velho.

1981
Atentado contra o Papa. Lançamento do Space Shuttle Columbia. Aprendi a andar de bicicleta, fiz um pára-quedas com saco de plástico e plantei um milharal. Numa noite houve um terremoto – sério! – e a cama do meu irmão foi parar no corredor. Eu dormi como um tijolo e nem dei bola. Só fui saber no dia seguinte.

1982
Eleições para governador. E eu com isso? Morávamos agora num sítio em Maranguape e meu barato era comer caju e chupar manga. Houve a Copa de 82. Brasil derrotado por 3x2 pela Itália, nas quartas-de-final, três gols de Paolo Rossi. Nunca mais houve Copa como aquela. Ia esquecendo: avião da VASP choca-se com a serra de Aratanha – literalmente, no meu quintal.

1983
EUA invadem Granada. Garrincha morre de tanto beber. Fiz um 14-Bis de papel, que obviamente não voou. Dei um murro feio no meu irmão. Me arrependi disso, pois minha mão doeu muito.

1984
Olimpíadas de Los Angeles. Influenciado pela competição, resolvi saltar de bicicleta por sobre uns obstáculos, com grau crescente de dificuldade. Deu tudo certo, mas desisti da minha carreira de desafiar o perigo quando um amigo tentou fazer o mesmo e se estabacou no chão. Nunca ri tanto. Também anunciaram o primeiro Rock’n Rio num lodaçal no começo do ano seguinte. Queen, Kiss, Paralamas e Ultraje a Rigor. Pena que não fui, mas com 13 anos de idade menino não tem razão. Lembram que a cerveja Malt 90 patrocinava o evento? Não? Nem eu. Lembrei agora.

1985
Eleição indireta, Tancredo vence e morre. Hit da época: "Ligeiramente Grávida", do Dr. Silvana e Cia. Tive uma experiência Genítica-Buarqueana. Essa história é meio mal contada, mas envolveu uma formosa dama chamada Margarida, alguns cruzeiros, tapumes, um globo de cacos de vidro e uma cortina de contas. Depois me apaixonei. Não pela Margarida, infelizmente, mas por uma colega de colégio. Devastador.

1986
A moeda do Brasil agora é o Cruzado. Explosão da Challenger. Volta do cometa de Halley. Viajei ao Maranhão e fiquei pendurado na lateral de um jipe. Dessa mesma viagem, tenho uma foto na qual estou conduzindo um jumento, que é claro não vou mostrar.

1987
Não lembro de nada que tenha acontecido nesse ano. Devo ter sido abduzido por ciganos ou estava de porre. Lembro vagamente de um show do Legião Urbana e do observatório astronômico do colégio, onde eu desenhava crateras da Lua. Ah, e meu irmão acordou do murro que eu tinha lhe dado.

1988
Promulgação da Constituição. Olimpíadas de Seul. Preocupado com o vestibular. Decido fazer arquitetura. Nesse mesmo dia, um gaiteiro escocês de nome O´Sullivan morre afogado num tonel de uísque. Prevejo então que minha carreira será um sucesso.

1989
Eleições diretas, aquele cara narigudo vence. Sou reprovado no vestibular. Sou reprovado no Detran. Seis meses depois, consigo passar no vestibular e no exame do Detran, e ganhei um concurso de desenhos importante. Devo ter envelhecido uns 15 meses nesse ano, por causa disso. Certa feita, inaugurando a carteira de motorista, consigo incendiar o fusquinha da mamãe. E numa outra vez volto pra casa dirigindo sem a embreagem do carro. O tal fusca – vulgo Bananada –, morreu de ataque cardíaco semanas depois. Que o deus do ferro-velho o tenha. Confecciono um uniforme do Batman! Mamãe não me deixa pintar o citado fusca de preto, ainda não entendi por que.

Com o “Ratlle and Hum” do U2, encaro a década de noventa com o vento no rosto e o peito aberto. Acho que nunca fui tão contente como nesses meses finais de 1989, meu Anno Mirabillis.

Obrigado, anos oitenta. Saudade.

fatman.jpg
Segundo relato de testemunhas, essa era a criatura
na qual me transformei e que rondava meus pesadelos.
E a partir de agora, os seus também, pobre leitor!

Por Hemeterio

às 05:31 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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· Flá Wonka
· Vivi Griswold