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| quarta-feira, 24 de dezembro de 2003 |
Eu queria esse jogo para mim
Segundo colocado
Tenho por princípio acreditar que nem todas as minhas experiências pessoais sejam válidas para os outros. Afinal, não é porque os óculos são parte integrante da minha vida desde os 12 anos que o são para todo mundo. Assim, fiquei matutando como fazer uma relação com o tema infância, sendo que nem todo mundo jogou futebol de botão ou brincou tanto de Imagem & Ação como eu. Aliás, brincou é só uma força de expressão. Se der, eu ainda brinco.
Nas coisas que eu pensei, vi que poucas podem ser consideradas universais para uma criança dos anos 80. E, talvez, a principal delas seja o Atari. Era o brinquedo que unia ricos e pobres, CDFs e repetentes, projetos de nerds com projetos de mauricinhos, meninos e meninas, fãs da Cindy Lauper e da Madonna, imitadores do Prince e do Michael Jackson... Todo mundo já pegou naquele joystick preto (sem maldade, por favor) com um botão vermelho e ficou horas achando os gráficos (para lá de toscos) o supra-sumo da tecnologia digital.
Um sinal forte do papel desse videogame é o fato de eu tê-lo escolhido para o texto. Mesmo não tendo possuído um (já que era adepto do Intellivision), jogava na casa de amigos, parentes e vizinhos. Por isso, imaginemos que toda a nossa infância foi um jogo de Atari.
Não vou dar mais argumentos de tão desnecessário que é: o melhor jogo para representar qualquer coisa é o clássico River Raid. Assim, vamos imaginar esse jogo, mas com adaptações de forma que cada item do ranking seja uma fase. E tudo começa na Fase 1.
Fase 1 – Casa
Você está na sua casa. Seu veículo é um triciclo Bandeirante vermelho com rodas azuis. Como você tem preguiça de pedalar, o impulso é dado com os pés no chão mesmo. A fase inicial é fácil. Os únicos perigos para o prosseguimento da jornada são os irmãos mais velhos, que atacam. Tenha cuidado, e não fique sem energia. Para reabastecer, passe sobre as bandejas com sanduíche de Io-Iô Crem e suco em caixinha Izzy, mais artificial que o corpo da Feiticeira (pensando bem, não é. Nem a inteligência do Deep Blue é tão artificial).
Fase 2 - Família
Você continua no triciclo Bandeirante, mas o cenário agora é a casa da vovó em festa de família. Mas atenção: por mais amigável que seja o ambiente, o excesso de obstáculos pode lhe atrapalhar. Procure andar sempre ao lado da vovó, já que ela pode fornecer combustível em forma de Dip’n´Lik. O maior perigo da fase secundária é o casal de primos mais velhos. Seu primo é fã do Scorpions e implica com a irmã, tiete dos Menudos. No meio de tanta guerra de travesseiros, um golpe pode sobrar para você.
Fase 3 – Escola
Agora você está a pé nessa fase em que as animosidades aumentam. Apesar de parecer um tanto monótona e sem grandes perigos, a sala de aula esconde um grande obstáculo: um monstro disfarçado de professora de matemática precisa ser enfrentado no final. Sua régua Desetec é fatal. Porém, você não pode atacar – pois corre o risco de ser suspenso e mandado de volta para casa (fase 1) imediatamente. Vá pelos cantos e faça o possível para passar por ela sem maiores conseqüências.
Fase 4 – Recreio
Aqui aparecem os primeiros inimigos que atiram. No caso, são os repetentes e suas bolinhas de papel. Ande longe das brincadeiras de pega-pega e amarelinha, além de outras crianças-obstáculo que correm de um lado para outro. Nem sempre há tempo de evitar o choque. Por isso, é difícil alcançar o único ponto de reabastecimento (identificado por “Cantina”). Lá você encontra Zambinos, Cebolitos e Baconzitos, mas essas iguarias não repõem de forma satisfatória sua energia. Tente apenas sobreviver.
Fase 5 – Festinhas
Novamente na casa. Para compensar a falta de combustível da fase anterior, não lhe faltarão oportunidades de reabastecer. Tente as coxinhas e a Diet Coke (só porque é moda, já que ninguém está de regime). Muitas pessoas se aproximarão de você, mas nem todas são amigáveis. Um garoto descontrolado no Pogobol é mortal. O mesmo vale para uma criança chata que o alcança e o tira para dançar. Uma dica para identificar a intenção da criança: se ela se aproximar quando o som de fundo for Debbie Gibson, afaste-se. Se for New Order, pode relaxar.
Fase 6 – Viagem no fim-de-semana
Você está na praia. Passe sobre o bronzeador (os programadores desse jogo ainda não conhecem os efeitos dos raios ultravioletas e uma pele queimada está na moda) e tente chegar ao mar. Portadores de pranchas de Morey-boogie e jogadores de frescobol são os principais obstáculos. Mas não são tão perigosos, pois seus movimentos são relativamente previsíveis. Passe na barraquinha de milho verde para ganhar energia.
Fase 7 - Televisão
Você está nos corredores de um estúdio de televisão. A tela se enche de inimigos como as garotas-roqueiras do desenho Jem, as patricinhas da “Turma da Pesada”, filmes de terror do SBT e uma marionete de maria-chiquinha e óculos identificado como “Moderninho”. Desvie de todos. Para reabastecer, passe sobre os monitores que contenham o desenho de um cachorro espadachim ou com uma moça identificada por “Gigi”. Nos trechos em que a quantidade de seres hostis é muito grande, apele para o livrinho da coleção Vaga-lume como forma de encher seu tanque energético.
Fase 8 – Cinema
Você está na Ferrari do pai do Cameron e tem de chegar na parada no centro da cidade. É uma fase traiçoeira. A mãe (antes sua aliada na fase 1) deve ser evitada. O monstro professora de matemática volta, bem como a irmã mais velha, que já marcou presença nas fases 1 e 2. Cuidado também com os manobristas loucos que querem andar com seu carro.
Fase 9 – Loja de discos
Tente lembrar-se dos conceitos da fase 5. Passar sobre discos de Smiths e U2 dão mais energia. Mas a quantidade de inimigos também é grande. Dançarinos de lambada passam a todo momento jogando fitas K7 do Luís Caldas e do Beto Barbosa sobre você. Desvie desesperadamente. Além disso, meninas adolescentes tentam bloquear seu caminho com pôsteres do Nelson, do Poison ou do Skid Row, enquanto que velhinhos atrapalham sua caminhada em busca dos discos do Richard Clayderman.
Fase 10 – Moda
Teste final: compras no shopping. O nível de dificuldade é enorme, pois ombreiras, cortes de cabelo iguais aos do tecladista do Duran Duran, blazers de cores vivas e com manga arregaçada e roupas de plástico provocam uma estranha atração em você. Tenha muito cuidado. Se você não se controlar, volta para a fase 3. Passe sobre os McSalads Premium (facilmente identificado pela caixa de isopor dupla, para que você junte as partes do sanduíche na hora do consumo) para ter energia durante batalha tão árdua.
Você pensa que acabou? Enganado. Quem já brincou com um Atari sabe que os jogos nunca têm fim e se repetem infinitamente. Assim, após passar a fase 10, você volta para a fase 1, mas o grau de dificuldade é crescente e os inimigos ficam maiores.
Se ficar difícil (e eu juro que não fica), desligue o videogame e vá a Internet, no site Garotas que Dizem Ni, onde é possível encontrar mais dicas de como sobreviver a esse River Raid dos anos 80.
Por Ubiratan
às 12:42 PM
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