Terceiro colocado
Outro dia usei uma expressão com um colega de trabalho e ele não entendeu nada. Para mim era a coisa mais simples, já que ouvia sempre minha avó dizendo e entendia perfeitamente a mensagem. Deve ser uma expressão típica lá de casa, pois meu colega ficou me olhando com cara de paisagem.
Algumas eu aprendi ainda criança, com minha avó – uma figura muito simpática que me ajudava a roubar o pega-vareta de minha irmã e ainda brincava comigo. Tudo no maior sigilo, claro. A maioria dessas expressões eu não entendo muito bem ao pé da letra. Mas que eram divertidas, lá isso eram. Prestem atenção, pode ser útil:
10) “Coitadinho por quê? Tá com uma ferida nas costas?”
Às vezes minha avó era um pouco cruel também. Não tinha um coração muito mole. Depois que ouvi isso, passei a pensar no sofrimento de quem carrega a tal ferida, já que para minha avó esse era o único motivo para se ter pena de alguém.
9) “Vai morrer estoporada”
Acho que todas as avós dizem isso, mas eu não entendia o que significava. Só sei que não podia abrir a geladeira após um banho quente. Por via das dúvidas e para não morrer tão jovem e de forma tão esquisita, eu obedecia.
8) “Jesus salva, cura e prepara para o céu”
Religiosa que só ela, nenhuma visita incauta escapava da tentativa de conversão. A tal sempre acabava com a seguinte frase: “Jesus salva, cura e prepara para o céu”. Não tenho notícias de que tenha funcionado, mas ouço até hoje.
7) “Deixe de saliência”
Que saudade de ouvir isso! Ninguém mais achou que eu era saliente depois que eu cresci. A não ser minha avó, que ainda solta a pérola quando passamos da conta em seu modo de ver. Mas por que saliência?
6) “Malbaças”
Essa eu demorei a saber o que era. Para quem está boiando como eu quando era criança: irmãos gêmeos e irmãos malbaços são a mesma coisa. Está no feminino porque minha avó se referia a duas tias minhas – que não eram malbaças, mas pareciam.
5) “Balainho novo tem três dias de torno”
De onde saiu isso, meu Deus? O balainho em questão é, de fato, um balaio pequeno? Tem alguma relação com a festa de Iemanjá? Dúvidas à parte, para minha avó os três dias eram o tempo que o brinquedo novo duraria intacto. E não é que ela tinha razão?
4) “Apois”
Essa é sensacional. Uma junção do “Ah, pois...”! Engraçado que toda vez que eu ouvia isso assim, tudo junto, achava que era uma palavra só e completamente nova. Confesso também que demorei um pouco para entender.
3) “Tá luxando”
Essa eu nunca ouvi em outra boca que não fosse a de dona Bernadete. Funcionava mais ou menos assim: apareceu de roupa nova? Tá luxando. O boletim estava azulzinho? Tá luxando. E sempre vinha acompanhado de um Hmm. Assim: “Hmm....Tá luxando!”.
2) “Vá a sebo”
Uma espécie de “vai se danar” no linguajar da minha avó. Quando ela se irritava com os filhos ou netos, sacava essa e ninguém mais incomodava. Depois surgiu uma variação mais completa, que está aí embaixo.
1) “Vá a sebo de cutia”
Agora sim! O animal foi especificado. Eu sempre me perguntava o que a cutia tinha a ver com a história. Mas é melhor não entender mesmo e ir à sebo, seja lá o que for.
Quanta coisa aprendi com essa senhora. E do jeito que ela é antenada, já deve ter atualizado as expressões – talvez tenha até incluído as palavras “night” e “balada” em seu vocabulário, quem sabe? Melhor não, senão eu é que vou ter que pedir para ela deixar de saliência!
Por Fernanda