quarta-feira, 17 de dezembro de 2003

Lava essa boca com sabão!

Não sei se vocês já observaram esse fenômeno, mas aqui no condô tem um punhado de crianças naquela incômoda idade em que brincar de carrinho ou boneca ainda é legal, mas a pestana já arrasta para o sexo oposto e você não quer mais ser visto em público dando a mão para a sua mãe ou seu pai. E essa classe de seres adora falar um palavrão.

Eu não sei o que é, mas parece que qualquer desafio aos bons modos que você aprendeu em casa demonstrado em público (ou melhor, entre o bando) é uma coisa bonita de se fazer. Então, eles abrem a torneirinha de asneiras e riem-se até, simplesmente por xingar uns aos outros.

Os diálogos que ouço por aqui consistem basicamente no seguinte:
- Oi, seu viado!
(Todos riem)
- Oi, cagão!
(Todos riem de novo)
- Junior, seu f*d*p*! Não falei para você trazer outra bolinha de pingue-pongue?
(Todos fazem rosquinhas de tanto rir e eu fico com aquela cara de paisagem, pensando “será que eu perdi alguma piada?”)

Não me lembro se eu também era assim. Sempre fui uma palavroeira de mão (ou boca) cheia, mas não ficava xingando meus amigos à toa. Ok, só um pouco. Mas acho que esse pitoresco comportamento é mais típico de meninos, já que até hoje é possível ouvir diálogos assim entre senhores de mais de 40, que são amigões de verdade:

- Fala, sua bicha! E aí, aquela merda que eu te pedi está pronta?
- Porra, cara! Lógico que não, catso! Você pensa que eu sou uma mariquinha que nem você, que faz tudo nas coxas?
- Tá certo. Amanhã eu pego, então. Dá um abraço para as crianças e manda um alô para a patroa!
- Falou, até amanhã.

Acho que é por causa desse estranho hábito, florescido na pré-adolescência à guisa de rebeldia, que aquelas clássicas musiquinhas de duplo sentido e gosto duvidoso pipocam bem na época do ginásio. O quê?! Você não se lembra? Então, prepare-se para voltar à 6a "B" e cante comigo!

Pega essa música suja...

Sabão Crá-Crá
Os Mamonas Assassinas mostraram que é possível pegar canções de ônibus de excursão para o Playcenter e transformá-las em grandes sucessos comerciais ao incluírem essa pérola no álbum. Os versos falavam de sabões específicos para os cuidados assim, digamos, com as partes íntimas masculinas.

Amigo da Garotada
Sabe Deus qual é o título oficial dessa quadrinha. Acho que nem nome tem ao certo. Mas a brincadeira – meio cantada, meio recitada – botava um incauto na roda para dizer que ele era amigo da garotada, amigo do sorveteiro, amigo do pipoqueiro e qualquer outra coisa que rimasse com atos sexuais feitos em troca de algo. Isso é que é por o amigo no meio...

Fulano é meu Amigo
Outra que trata de “amigos”. Nessa, a rima dizia: “fulano é meu amigo, fulano é meu colega, eu vou fazer com ele o que o cavalo fez com a égua”. Confesso que boiei um pouco até entender essa quando a ouvi pela primeira vez, nos idos da quinta série. Além do mais, nem rima direito. Mas, puxa!, com um amigo desse, quem precisa de inimigos?

Jererê, Jererê
Essa era a mais pesada de todas. Tratava-se de um refrãozinho repetido à exaustão, citando uma droga alucinógena que decerto ninguém fazia idéia do que era àquela época: “jererê, jererê, LSD”. Nos entremeios, os mais sapequinhas da classe cantavam versinhos chulos envolvendo empregadas, moças de casa de tolerância e uma curiosa versão para a história de Adão e Eva. O pior (ou melhor) é que, por ser cantada em grupo, podia durar todo o caminho da ida e da volta ao Playcenter. Haja sabão!

Clara McFly às 05:48 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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