terça-feira, 16 de dezembro de 2003

Eu não me esqueço

A minha avó é a pessoa mais sábia do mundo. Quer dizer, era. Uma série de pequenos derrames mandaram a dona Flor (que não tinha dois maridos, mas um que valia por dois em tamanho e um pouco de chatice) para algum outro lugar que não sei bem qual é.

Ela não nos reconhece mais, fala muito pouco e requer assistência para andar, comer, se vestir… continuar a viver. A nona já está nessa há uns cinco anos. Nas raras ocasiões em que ri ou faz seus olhos adquirirem alguma expressão, me mata de alegria. Quando diz meu nome, então, nem se fala – mesmo que eu sempre tenha que ajudar falando a primeira sílaba.

Eu me espanto com a audácia dessas doenças da cachola. Como essas porcarias de AVCs (ou Acidentes Vasculares Cerebrais) ousam fazer minha vó se esquecer de mim? Logo de mim, que passava as manhãs sob os cuidados dela enquanto minha mãe terminava os estudos?

A casa da minha avó tinha o tradicional quintal de cimento queimado, com a frente forrada daqueles caquinhos baratos de ladrilho vermelho, com um ocasional amarelo e preto aqui e ali.

Também tinha um jardim onde ela plantava rosas, azaléias e camarão-amarelo, além de uma grama fofinha na qual eu adorava afundar a mão e uns pés de erva cidreira e outras bossas medicinais.

Ela sabia de tudo: de o que comer quando se está com dor-de-barriga a receitas de vinho, pão doce e massa de pizza caseiras; de quantas vezes regar uma azaléia a como entreter uma criança tímida e absorta – no caso, eu.

A Nina, como meu avô a chamava, me deixava brincar com a infindável coleção de botões, de toda sorte de tamanhos, cores e formatos, que a segunda gaveta da sua máquina de costura – outro clássico das casas de avó – guardava.

Ela enfiava uma linha e eu passava horas alinhavando botões. Depois, desmanchava aquele estranho colar colorido e ia puxar a barra da saia dela em busca de outra coisa para fazer.

Geralmente, isso significava ficar ao pé da pia da cozinha, retirando pacientemente todas as panelas que se escondiam ali, enquanto ela lavava a louça. Depois, eu rearranjava tudo de novo mais ou menos no mesmo lugar (cruzes, eu devia ser uma criança muito absorta meeesmo para me entreter com isso).

Mas a glória absoluta era brincar com o tacho de água. Ela enchia uma baciona, dessas de lata, que hoje acho que nem existem mais. Punha perto da grama e me deixava sapecar as mãozinhas e me refrescar. Os respingos da água molhavam o chão de cimento queimado e evaporavam tão rápido que parecia mágica.

Hoje, passando alguns dias no hospital e outros na casa da minha mãe, cuidando de uma boneca que ela jura ser um bebê de verdade, Nina pode ter se esquecido de que é minha vó. Mas eu não me esqueço de que sou neta dela – e nem poderia, porque ela (ainda) é a melhor vó do mundo.

mico03caipira.jpg
Eu, um chapéu ridículo e o saudoso
quintal da minha avó


Clara McFly às 06:33 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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· Vivi Griswold