terça-feira, 16 de dezembro de 2003

Portal mágico em capítulos

O efeito que o cinema tem sobre mim é digno de estudos psicológicos avançados. Bastou sentar na poltrona e apagar a luz, pronto: o turbilhão de emoções toma conta e é um tal de rir, chorar, vibrar, xingar... Os livros fazem quase a mesma coisa. A diferença é que, com as obras encadernadas, não há sala escura para esconder meu “showzinho” – e, em se tratando de dois títulos em especial, é questão de tempo até alguém oferecer uma aspirina.

Chamam-se “A Sangue Frio” e “A Saga do Endurance”. Assim como acontece com alguns filmes selecionados, posso reencontrar esses livros a cada seis meses que não enjôo. É como ver “Curtindo a Vida Adoidado” pela milésima vez, só pode ficar melhor! Tudo bem, com essas obras não há muito jeito de rir como na cena em que Ferris dá golpe no restaurante francês... Os dois volumes apostam mais na sangueira e no drama mesmo.

O primeiro é leitura obrigatória para jornalistas, estudantes disso ou qualquer um que lide com fatos, verdades e o público. Eu conto um pouco, para explicar. Escrito por Truman Capote em 1966, o livro é conhecido por ser um romance-reportagem. Acontece assim: o fato narrado ali – o assassinato cruel de uma família do interior americano – é verdadeiro.

Capote viajou ao local da tragédia, entrevistou dezenas de pessoas. Mas, em vez de contar isso apenas numa reportagem do caderno policial, ele produziu um livro. Os acontecimentos estão ali, mas ele monta isso na forma de um romance, com cada personagem descrito por meio de verdades e alguma imaginação.

Sabe no que deu? Um livro tão atormentador que chega a dar pavor. Na primeira vez em que eu li, estava numa viagem a Buenos Aires. Antes de dormir, lia um bocadinho de “A Sangue Frio”, para ver se dava sono. Sono??? Tive que verificar a fechadura 12 vezes e pensar em gatinhos ronronantes para conseguir dormir.

Se o leitor aí do outro lado não quer morrer de medo com famílias assassinadas e torturadas ou pesar os resultados da pena de morte – o livro foca muito nisso também –, é melhor ficar com o outro dos meus prediletos. “A Saga do Endurance” é literatura verídica também, mas o único sangue que rola pelo solo é o de focas, pingüins e cachorros. O que não é nenhum alento, é verdade...

Acontece que a história contada por Alfred Lansing (e depois recontada, com fotos, por Caroline Alexander) se passou em 1914, época em que alguns homens se engalfinhavam para ver quem conquistava mais terras distantes. O explorador-e-malucão da vez era Ernest Shackleton, um navegador irlandês competente e esperto. Líder da expedição, Shackleton pretendia ir de navio até o Pólo Sul, desembarcar e cruzar o continente gelado a pé, a primeira travessia transantártica do mundo. Deu certo? Hum... conto mais?

Ok, vá lá, só mais um bocadinho. O navio chegou no pólo e atracou, mas algo deu errado. O gelo fechou em torno do Endurance e amassou o barco como eu faço com papel de bala. Resultado: 28 sujeitos largados no meio do nada absoluto, sem condução para casa e sem resgate vindo para socorro.

Basta contar que a viagem desses homens de volta à Europa é uma das epopéias mais incríveis e maravilhosas já executadas. Não conto além disso para não estragar, mas confia em mim: ser obrigado a comer pobres foquinhas e dar cabo dos cães levados para puxar trenó foi o de menos.

Quem mandou os marinheiros do Endurance se meterem onde não eram chamados, dizem vocês? Ninguém, digo eu. Mas que conhecer essa história me faz serrar os punhos, erguer os bracinhos e soltar vários “aêê!” junto com lagriminhas, lá isso faz. Assim como abro o berreiro com a descrição da morte da família Clutter – principalmente da filha mais nova. Droga... alguém aí tem uma aspirina?

Fla Wonka às 01:21 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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