segunda-feira, 15 de dezembro de 2003

Respira fundo e conta até dez

Que alongamento corporal que nada! A modalidade mais necessária para viver na cidade é o alongamento dessa virtude chamada paciência. Eu sou conhecida por ser um poço da tal qualidade – consigo até ouvir "Florentina", do Tiririca, de cabo a rabo (e rir) – mas ultimamente está difícil manter o equilíbrio.

O gozado é que partimos do princípio de que as pequenas coisas da vida estão cada vez mais facilitadas, com o progresso científico humano. Mas o caso é que o progresso da cidadania humana não está acompanhando o ritmo. E por isso, é cada vez mais torturante…

Encarar o trânsito
A briga por um mísero centímetro quadrado de asfalto é impressionante. Fechar o cruzamento, fazer conversões proibidas e deixar uma fila de gente esperando atrás, furar o farol vermelho: tudo isso é bem comum no caminho que faço de casa ao trabalho. Tem dias que começo a imaginar se estou invisível, tal é o número de pessoas que me fecham.

Fazer compras
Nem precisa ser de Natal. Estou falando de supermercado mesmo – que, é claro, fica mais cheio perto do solstício de verão. As pessoas deixam os carrinhos nas vagas de estacionamento, estacionam os mesmos no meio dos corredores do mercado e se estapeiam para aproveitar as promoções. E eu não aguento mais ouvir as versões midi de sucessos natalinos. Cristo… nasce logo, pelamor!

Assistir à TV aberta
Ainda não cabearam meu condô, apesar de já fazer dois meses que fizemos o pedido da TV por assinatura. Dessa forma, continuo no aguardo do milagre que vem pelo cabo, como dissemos aí na barra lateral. O lado bom: li muito mais livros, conversei mais com o namorido tomando vinho, escrevi mais. O lado ruim: Leão e o "Boa Noite Brasil", escândalos explorados no "Superpop" e no "É Show!", Gugu e Faustão como únicas opções de domingo. É preciso ter muito senso de humor…

Ouvir rádio
Com a grata exceção da Brasil 2000, que passou por uma belíssima reformulação pelas mãozinhas mágicas de Kid Vinil, da Eldorado (em parte, porque toca coisas muito boas e, de vez em quando, world musics muito chatas) e da Kiss FM (que às vezes toca Rush), a programação das rádios de São Paulo está assolada pelo mal do jabá. Quem disse que a volta do Capital Inicial é boa, que Evanescence é legal e que Linkin Park (cuja introdução da última "música de trabalho" parece Information Society) é bacana?

Clara McFly às 06:15 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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