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Conhece a Bela Limão? Na casa da minha avó, havia um quadro que me fascinava: era o rosto de uma mulher, com lábios carnudos e vermelhos, uma pinta insinuante pouco acima e cabelos negros. Quando já não agüentava mais de curiosidade, perguntei ao dono do quadro, meu tio, quem era aquela. Ele me respondeu que era uma atriz famosa, a Marilyn Monroe. Aos sete anos, não entendi o nome estrangeiro e enrolado. Achei que a mulher se chamava Bela Limão. Muito tempo mais tarde é que fui capaz de repetir “merilim monrou”. Foi nessa época também que fiquei me perguntado porque diabos o quadro do meu tio, que já tinha ido embora (o quadro e meu tio: um para o lixo, o outro para a Inglaterra), retratava a voluptuosa loira como uma morena. Vai ver, foi licença poética de algum artista da Praça da República. Marilyn é um dos pouquíssimos casos em que o mito é muito, mas muito maior do que a pessoa. Todo mundo associa o nome à imagem, mas nem todo mundo já a viu em ação, atuando ou cantando em filmes da época áurea de Hollywood. Aposto até mesmo que tem gente por aí que acha que ela nem existiu – algo como um Sherlock Holmes de vestido esvoaçante e biquinho sedutor. Eu mesma me colocava no balaio de pessoas que sabiam quem ela era, apesar de serem completamente analfabetas sobre sua filmografia. Ia até mais longe, só de birra, achando que davam crédito demais à atriz – afinal, a Audrey Hepburn sempre foi 500 vezes mais linda e elegante do que a senhorita Monroe. Não entendia o motivo de tanto frisson em cima da figura. Até que, há uns dois anos atrás, “Quanto Mais Quente Melhor” re-estreou em cinemas paulistanos. Ver um filmão hollywoodiano, preto-e-branco, na telona... ah, que mais poderia querer? Fosse qual fosse o título, estaria lá de qualquer maneira. E decidi também dar um crédito para a figura que tanto me intrigou na infância. Foi só aquela mulher aparecer para tudo fazer sentido. Depois de tanto tempo, a ficha caiu nessa minha cabecinha habitada por parafusos, teias de aranha, uma jujuba vermelha, um mico leão dourado e uma moeda de cinco cruzeiros. Lá estava ela, roubando toda e qualquer cena, mesmo quando não tinha uma fala sequer e sua função era explicitamente enfeitar o cenário. Com um corpo de Miss Universo dos anos 40 (lê-se: rechonchudo), olhar de aparvalhada, voz de menininha criada em orfanato e sex-appeal capaz de levantar defunto, o fenômeno Marilyn finalmente ganhou vida diante dos espectadores de queixo caído. E, estranhamente, a tela do cinema me pareceu pequena demais para tudo aquilo.
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