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Coroinha dos diabos Como diz Clarinha McFly, tem coisas nessa vida sobre as quais a gente não tem poder de decisão – elas apenas acontecem à nossa revelia, e não adianta querer fugir. Ouvir Technotronic, repicar o cabelo como o do Xororó e fazer primeira comunhão são três delas. Vou deixar as duas primeiras de lado um instante para focar na última. Oh, yes: eu completei o catecismo. Vou dizer: foi uma das experiências mais revoltantes e bizarras pelas quais eu passei. Mas como escapar? Toda a turma da terceira série já estava inscrita no catecismo quando minha mãe lembrou que eu devia fazer isso também. Saco, eu jurava que ela ia esquecer! Que nada... e lá fui eu para DOIS ANOS de ensinamentos bíblicos. Sim, foram um par de anos nesse esquema. Duas aulas por semana ministradas por uma voluntária da paróquia dentro do Centro Comunitário. Em vez de assistir Sessão da Tarde comendo Cremogema, como toda criança feliz dos idos de 1985, lá ia eu com o Novo Testamento, caderno e lápis me enfiar no Centro. Eu e mais umas 30 alminhas semiperdidas, claro. Ficar de pé e ler as passagens da bíblia era dose – e eu lá entendia palavras como perjúrio, asseclas e parábola? Quando diziam que Jesus “pregava” entre o povo, eu imaginava um moço de chinelas grampeando coisas nas pessoas. E os coríntios, para mim, eram torcedores de um time de futebol que não tem estádio próprio. Pensando bem, acho que o catecismo (junto com a minha imaginação) me colocou mais perto do purgatório que do paraíso. Bom, era inevitável. Afinal, a professora não deixava levantar discussão sobre as passagens, a lição me obrigava a dizer coisas nas quais eu não acreditava e as tradições eram de endoidecer. A confissão, por exemplo. O padre queria que eu dissesse o que fiz de errado para dar uma punição. Daí eu dizia que não tinha feito nada tão grave que justificasse ficar de joelhos (tenho problemas nos dois, e eles doem pacas). Ele não acreditava, e então eu inventava uns pecadinhos só pra me safar mais rápido, rezar duas Ave Marias e cair no mundo. Dava certo! O dia em que finalmente as aulas de catecismo acabaram foi como final de campeonato com meu time campeão! Mas o pior ainda estava por vir. Quem conhece essa que vos escreve sabe muito bem: me encontrar vestida de branco, com terço numa mão e uma vela na outra só tem duas explicações. Ou é baile a fantasia chegando ou eu morri e virei assombração. Mesmo assim, essa foi a fachada que armaram para minha Primeira Eucaristia. Tudo bem: o vestido era bonito, tinha meia-calça para acompanhar, sapato com fivela de boneca e uma tiara de florzinhas. O que não estava certo: fazia 35 graus à sombra e o malfadado traje quase me matou de calor. Para piorar, eu tinha passado o dia todo na piscina do clube, fiquei cor de camarão e não se podia relar nos meus ombros. Maaas... foi exatamente o que o padre fez ao entregar a minha hóstia. E em vez de botar a coisinha na boca, baixar a cabeça e voltar pro meu banco, soltei um sonoro “aaai!”. Ficou feio, mas felizmente poucos perceberam. Também não notaram que eu mastiguei o “corpo de Jesus”. Ah, tinha gosto de pão, foi irresistível... Depois vieram as fotos na praça, sentada no gramado e fazendo pose. Ainda não consegui queimar todas, mamãe não deixa. Suponho que nunca vai deixar. Clarinha disse com razão: tem coisas na vida que não se pode evitar, como ouvir Technotronic, repicar o cabelo como o do Xororó e fazer primeira comunhão. Duro mesmo é que se torna impossível esquecer disso tudo também. |
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