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Com a lanterna no queixo Uma mulher de branco pede carona no meio da estrada, durante uma noite escura e coroada pela densa neblina. Um motorista solícito oferece ajuda à dama. Ela diz que precisa seguir ao cemitério. O rapaz pára em frente aos sóbrios portões, e vê a mulher desaparecer diante de seus olhos assustados. E aí, arrepiou? Claro que arrepiou: eis a graça de contos de terror. Mesmo que seja a centésima quinta vez que você ouve a história – e mesmo sabendo que ela provavelmente veio de uma mente criativa –, é sempre mais emocionante fingir acreditar e deixar os pelinhos do braço ficarem em pé à vontade. E quando somos crianças, então? Daí, qualquer coisa assusta. Se eu fiquei petrificada de medo com o filme “E.T. – O Extraterrestre”, imagine o que uma narração fantasmagórica não era capaz de fazer! Só de ouvir qualquer referência sobre a tal “brincadeira do copo”, já pedia para dormir no meio dos meus pais à noite. Os contos de terror mais famosos empalharam-se como lendas urbanas. Todo mundo conhece uma versão da historinha que eu citei no primeiro parágrafo. E todo mundo conhece alguém cuja amiga tem uma sobrinha que tem uma prima que bota até a mãe no meio para jurar haver conversado com uma alma penada através de um copo virado com a boca para baixo. Quem somos nós para duvidar? Eu, hein... Devo confessar que adoro contos de fantasmas – mesmo que isso ainda arrisque minhas boas noites de sono. Sou a primeirona a me empolgar totalmente quando, em reuniões de amigos, uma pessoa tem a idéia de dividir narrativas da espécie. Se existe uma lanterna por perto para ligar no queixo, maravilha! Respiro fundo e espero a minha vez de contar causos. Portanto, tenho na cabeça um vasto arquivo. A maioria é batida, claro. Como aquelas historinhas em que um médico é chamado às pressas por alguém cuja filha está agonizando. O médico vai e atende a paciente. Quando ela pergunta “mas doutor, como o senhor soube que eu estava doente?” e ele responde “sua mãe me chamou”, CLARO que a mulher vai dizer “mas minha mãe morreu há dez anos...”. Pausa dramática. Lembro-me que uma vez, quando eu era pequena, o “Fantástico” exibiu dramatizações de histórias de medo. Aquilo me traumatizou de uma forma que até hoje tenho horror do nome Berenice – porque ela era a tal mulher morta há anos que chama o médico para socorrer a filha. Quinze anos se passaram, mas a finada Berê continua me assombrando. Pode? E foi naquele fatídico especial que eu ouvi a história mais apavorante do mundo. Um homem está dirigindo pela estrada quando vê uma senhora ensangüentada acenando freneticamente. Ele pára, e ela diz que aconteceu um acidente: o carro em que estava despencou do barranco. O homem desce até lá e, quando enfim consegue olhar para a vítima fatal... adivinha? Era a mulher. Ai. Agora vamos espantar o medo pensando em cachorrinhos, borboletas e taças de sorvete. Mas para garantir, posso deixar a luz do abajur acesa? Só por hoje... Vou chamar a Berenice! |
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