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Dura de enxergar Eu não enxergo nada. Ou quase nada. Essa declaração é verdadeira em vários aspectos: além de guardar seis graus da mais pura miopia do milho verde em cada "vista", como diz minha avó, eu mantenho um número bem maior de macaquinhos na cachola. Combinados, os fatores pouca visão e muita imaginação me pegam o tempo todo – para bem ou para mal. Como é sabido, os míopes não enxergam bem à noite. Quer dizer, não enxergam bem no geral, mas quando a lua surge, mesmo com lentes, o efeito corretivo é defasado. Por isso, canso de ver vultos de cachorros atravessando a pista, água onde o asfalto está seco e coqueiros plantados no meio da Anchieta. Tudo ilusão, claro – ou possessão, dependendo do pastor. Por outro lado, apesar das lentes Acuvue e da fértil inventadeirice, não consigo ver um bebê num simples ultra-som! Aliás, acho que nem os médicos. Eles blefam, apontando manchas aleatórias no negativo e dizendo, com a cara mais deslavada do mundo: "olhaí o seu filho!" É claro que nenhuma mãe ou pai vai dizer: "desculpe, doutor, mas isso é só uma borrão". Vai ser tachado de péssimo progenitor para o resto da vida – e olha que ainda nem começou a exercer a função. Ou talvez seja por isso que os médicos passam tanto tempo estudando: é um desafio enxergar qualquer coisa num ultra-som… E ressonância magnética, então, que é uma espécie de ultra-som animado? Parece aqueles descansos de tela meio psicodélicos do iTunes. Outro mistério para mim são as figuras na lua. Uns dizem que tem um dragão, com ou sem São Jorge a tiracolo. Outros defendem a estampa de um velhinho. Tudo que enxergo no nosso satélite natural (e foi um sacrifício até conseguir) é um coelhinho. Alguém mais vê isso? Não? Ok. Vou voltar pro meu cantinho e marcar retorno ao oftalmo.
Olhaí o seu filho, quer dizer, o coelhinho! Com uma foto desse tamanho, não tem como não ver, vá?
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