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Tevê pra tia ver Agora que estou semi-desempregada, posso me entregar a um vício que me consome a anos: a televisão. Mas nossa, como esse mundinho ficou estranho nos últimos tempos... Quase não existem mais filmes vespertinos ou programas infantis com desenho animado. Agora, entre as 8h00 e as 18h00, a caixa de fazer doido é dominada por culinaristas apaixonadas, médicos de toda especialidade e um mar de artesãos. Ninguém deu o alerta em cadeia nacional, mas o fenômeno aconteceu: quem quer assistir televisão em dia de semana é obrigado a gostar de pistola com cola quente e torta de liquidificador. Tudo bem, eu até acho bacana brincar com material de papelaria e lambo os beiços de pensar no quitute acima, mas 10 horas disso é um pouco demais, não? Bom, parece que não. Mal o galo canta e as “coleguinhas” já estão na tela. Seja ensinando a fazer ginástica usando o cabo da vassoura (no bom sentido, sempre), seja mostrando como cozinhar um leitão inteiro. Aliás, pela quantidade de assados gigantes que essas mulheres preparam, dá a entender que moramos em uma vila na Gália e temos um Obelix em cada residência. Caramba, e eu que só almoço um macarrãozinho básico, uma salada ou, nos dias de inspiração, duas colheres de arroz para cada duas de feijão... Mas, se quisesse, aprenderia a cozinhar um jegue apenas ligando o botão da tv! Passada a hora da fome – que para as apresentadoras de programas mulherísticos começa mesmo no meio da manhã –, tem início a discussão clínico-filosófica sobre uma infinidade de distúrbios. Médicos surgem de todos os cantos do cenário de papelão pra dar dicas de como combater o Mal de Parkinson, como acalorar as relações matrimoniais ou como acabar com as pontas duplas do cabelo. É de chorar de rir, principalmente quando entram participantes fazendo perguntas pelo telefone. Em geral, elas só querem mesmo é ver seu nome na tarja: “Maria das Graças – Dona-de-Casa – Por telefone”. U-hú! A moça ganhou o dia! E vai correndo esfregar isso na cara da vizinha, por certo. A próxima etapa pode acontecer em um ou dois níveis. Ou as tias partem para a montagem de cestas feitas com tubinhos de jornal velho ou fazem isso enquanto contam detalhes íntimos dos artistas da novela das oito. Na maioria dos casos, esse quadro é uma baba de montar. Basta apanhar a nova edição da Contigo, da Caras e da Quem e mandar ver na leitura. Muito cômodo ser chupim, hein? Daí, depois de todo aquele período tagarelando e fazendo guirlanda de Natal com garrafa pet recortada, bate de novo a fome. E dá-lhe Palmirinha Onofre! Conhece essa senhora? Não sabe o que está perdendo. Ela é uma mistura de Mirtes com a sua avó e o Maguila. Não concatena o plural de UM artigo com substantivo (e tudo vira “os garfo”, “as tigela”), mas como ela é fofa. Rainha da massa de tomate, Dona Palmira abrilhanta as tardes da TV Gazeta. Ok, pode ser que ela não abrilhante tanto assim. Mas pelo menos não usa um quilo de maquiagem e nem roupas azul-turquesa com lantejoula. Será que foi assim que as apresentadoras da tarde hipnotizaram os chefes de programação? Para ganhar tardes e mais tardes de merchandising e aulas de pintura em porcelana, só pode ser. |
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