sexta-feira, 28 de novembro de 2003

Biriquitote! Xefra!

Um dos livros mais bacanas que já li - e que ainda releio, de tempos em tempos - é "Marcelo Marmelo Martelo", da excelente Ruth Rocha. A história-título apresenta a inventiva saga de um menino que, curioso sobre a origem das palavras, começa a criar sua própria língua (as expressões que emprestei para batizar este texto são os palavrões que o petiz tirou da cachola).

Além de ser uma pérola da literatura infantil, também tenho a brochura em alta consideração – e em lugar cativo na estante – porque eu me identificava com o pequeno herói. Quem nunca pensou que determinada palavra significava algo totalmente diferente, tamanha a discrepância da sonoridade da dita com seu sentido?

Quando eu era pequena, achava que "escrúpulo" era uma coisa muito feia de se ter. Uma palavra assim tão horrorosa e áspera não podia se referir a nada de bom – mas se refere.

Vivi me confessou outro dia que "escaninho" lhe inspirava um bichinho, tipo esses ferrets peludinhos que pululam por aí. E não devia mesmo ser isso?

"Macadâmia", para mim, era uma região antiga – talvez próxima à Mesopotâmia, entre o Tigre e o Eufrates –, e jamais uma espécie de castanha.

"Plúmbeo" me remete a coloridas penugens de bichos exóticos, e nunca a algo feito de material tão pesado como o chumbo.

E, fazendo supermercado esses dias, notei o advento do palmito de pupunha (!). Primeiro, achei que parecia um apelido infantil para as partes íntimas. Tipo periquita, sabe?

Depois, imaginei que "pupunha" seria sinônimo de frescura, fosquinha. Assim: "ah, pára de fazer pupunha e come logo essa sopa de feijão!". Claro que a palavra deve denominar uma espécie de palmeira, mais abundante que a do outro tipo de palmito, já que a iguaria de pupunha é bem mais barata (mas achei que tem gosto de borracha).

Se eu fosse a CEO vitalícia do Departamento de Línguas para Todos os Povos do Planeta, a Macadâmia seria uma bela terra habitada por escaninhos plúmbeos correndo soltos, sem escrúpulo algum, que jamais fazem pupunha. Como não sou, essa é apenas uma frase absolutamente nonsense. Mas podia ter todo o sentido do mundo, se eu fosse a personagem principal de um livro chamado "Clarissa Salsicha Preguiça" ou algo que o valha.

Clara McFly às 07:19 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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