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Garota em fuga Passei a mão nas minhas roupas, nos CDs, nas bugigangas que decoravam minha escrivaninha de cerejeira, no pijama de bolinha e dei o fora da casa dos meus pais. Disse que dali não levaria nem o pó e, como Carlota Joaquina, bati os sapatos na soleira da porta. Ah, a quem eu tô enganando... não foi dessa maneira teatral que eu saí da casa dos meus velhinhos, não. Eu tinha 21 anos quando decidi deixar pra trás o conforto que papai e mamãe me proporcionavam. Coitados, já tinham suportado demais os meus sapatos largados na sala, as minhas manias, as chegadas na madrugada e o meu mau humor – eu morava em São Bernardo e trabalhava em São Paulo, cidades separadas por 1h30 de trânsito, daí a carranca. Não fiz o drama descrito no primeiro parágrafo, mas foi emocionante partir. Alojei os pertences em três caixas pequenas, coloquei todas as peças de roupas sobre um lençol estendido no chão, amarrei as pontas e soquei tudo no meu Uno Mille. Dei um beijo no pappy, dois na mammy e avisei: “hoje já não durmo mais aqui, tá?”. Foi assim, simples e sem chororô. A partir daí é que o caldo entornou. Eu saí de casa para morar em um apê alugado com duas amigas. Bom, a verdade é que uma delas era muito minha amiga, mas a outra eu nem conhecia direito. Arriscado? Que nada! Hoje Caren e Taís são duas das pessoas que eu mais respeito no mundo. A convivência faz milagres. A primeira semana foi bizarra. Nossa mobília se resumia ao que cada uma levou para o seu quarto – o meu, franciscano, só tinha um baú, uma estante de ferro e um colchão. Além disso, ganhamos um fogão usado da minha irmã, uma geladeira da mãe da Caren e... droga, era só isso. Ah! Mas as meninas, estudantes de música, botaram o piano na sala, o que deu um charme no local. Apesar daquele carpete imundo que nunca tinha visto escova e sabão. A diversão, nesse começo, era garantida pelo arquivo particular da Taís. De lá saiu, por exemplo, uma pasta com recortes de revista das piores boy bands do mundo, incluindo aí centenas de lembranças do New Kids on The Block. Nem o cara que descobriu o túmulo de Tutancâmon se divertiu tanto com um achado histórico. Foram semanas de riso vendo a cara de imbecil do Jordan Knight... Morei nesse apartamento de janeiro de 1997 a julho de 1999. Foram quase mil dias de muita gargalhada, de horas e horas vendo tv esmagadas no sofá pequeno comprado à prestação, de ódio à vizinha que deixava o papagaio na chuva, de miséria financeira quase total. E de personagens estranhos colecionados. A vizinha de porta era a rainha máxima da fritura, o que deixava uma névoa constante no corredor – daí chamarmos o andar de “Transilvânia”. O zelador era um sujeito muito do saliente que, dois dias depois da nossa mudança, já me chamava de Flavinha. A síndica era daquelas que fincava o pé na porta para xeretar nossa casa (mesmo com uma fresta minúscula da porta aberta). Para quem duvida que sair da casa dos pais é uma boa pedida, posso dar meu conselho. Demorou, criatura! Sai a roupa limpa, passada e guardada na gaveta, a comidinha gostosa e os mimos gerais? Sim, mas vem o domínio total do nariz e o crescimento como humano. Sem falar na lista de compras recheada de porcarias, as festas e a liberdade de deixar os sapatos em qualquer canto. |
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