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Perfeitamente dispensável É com tal modéstia que Millôr Fernandes classifica um livrinho lançado em 1973 com título, conteúdo e ilustrações deliciosas. Pensando bem, o autor até pode ter razão: "Fábulas Fabulosas" não vai mudar a sua vida, nem dar respostas às grande questões do universo, muito menos ensinar algo útil como fazer uma fogueira no meio da selva sem utilizar gravetos, pedras ou capim seco. Mas vai fazer você rir até gritar "chega!". Pelo menos é isso que acontece comigo cada vez que me aventuro a buscar o volume de capa dura que guardo com carinho. E bota aventura nisso, porque em suas páginas amareladas pela idade (30 margaridas!) escondem-se coisinhas microscópicas que me fazem espirrar e coçar o nariz pelo resto do dia. Chamo de "a tarde do Millôr" o dia em que literalmente desenterrei o volume da mitológica estante da casa da vovó - junto com "Trista Anos de Mim Mesmo" e "Millôr no Pasquim", outras duas obras do escritor, jornalista, desenhista, piadista, mestre-cuca e mecânico de mão cheia. Tá, não sei se ele é mestre-cuca ou mecânico de mão cheia, mas isso não vem ao caso. "Fábulas Fabulosas" é uma coletânea de... fábulas. Como aquelas de Esopo, só que marinadas no mais fino e perspicaz humor negro. Ao final de cada um dos contos - repleto de seres fabulosos e falantes como gatos, baratas, ratos, raposas e o homem mais feio do mundo - encontra-se a moral da história, carregada de moral alguma. "Cada um tira dos acontecimentos a conclusão que bem entende", "Mais vale um urubu na mão do que um faisão inventado pela malandra imaginação do urubu", "Quem ama o feio tem algum objetivo", "No céu não entram sujeitos com idéias", "Quem está na merda não filosofa" e "Mulher não faz mal, o que faz mal é correr atrás delas" são alguns exemplos favoritos. E os títulos das fábulas então? "O Califa e o Office-boy", "O Renascer dos Belos Sentimentos, Uma Vez Satisfeitas as Necessidades Básicas", "O Camelô Acamelado", "O Menino Favelado de Espírito Empreendedor" e a sensacional "Patchutala" - só lendo para saber. Por falar em só lendo para saber, a fábula de que mais gosto é "A Baposa e o Rode", escrita com sílabas trocadas. Tente entender o comecinho dela: "Por um asino do destar uma rapiu caosa num pundo profoço do quir não consegual saiu. Um rode, passi por alando, algois tum depempo e vosa a rapendo foi mordade pela curiosidido". Coisa de gênio ou o quê? É por isso que a moral desta história não poderia ser outra: Mimais é dellôr.
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