terça-feira, 18 de novembro de 2003

Eu pego a lona, você o toca-fitas

O grande evento era sempre marcado na agenda. "Hoje é níver da Zezinha". Por que escreviam "níver" naquela época? Enfim. Estávamos crescidinhos demais para uma festa de aniversário familiar e cheia de bexigas, mas ainda não éramos grandes o bastante para conseguir algo além de matinês de danceterias. Havia apenas uma solução: improvisar.

Isso, claro, se o pai do aniversariante não fosse rico - daí ele alugava um salão de festas com DJ e tudo, o que se transformava em assunto pelo resto do ano letivo. Como o meu pai não era rico, e a maioria dos pais dos meus colegas de escola também não, nós nos contentávamos com as festas de garagem.

O funcionamento era simples. O evento acontecia na garagem da pessoa, sem carro algum por motivos óbvios. Para um pouco de privacidade, uma lona era colocada sobre o portão de ferro, impedindo que pedestres curiosos ficassem xeretando para dentro ou tentassem entrar de bicão. A iluminação era precária para dar um "clima".

Não podíamos entrar na casa, onde a família do aniversariante jantava e assistia à novela das 8 (sim, esse era o horário da "balada") tranquilamente, como se um bando de pré-adolescentes não tivesse invadido uma parte da residência. Apenas o banheiro era liberado para aliviar necessidades básicas.

Ainda que odiávamos ser chamados de crianças, adorávamos os comes e bebes que continuavam os mesmos de festas infantis: brigadeiro, beijinho, cajuzinho, sanduíche de frango desfiado, coxinha, empadinha, refrigerante... E, claro, um grande bolo cheio de confeitos, devorado em segundos após os parabéns - com discurso.

O que seria de uma festa sem a parte musical? No caso, o aparelho de som da família, gigantesco como todos da espécie produzida no final dos anos 80, ganhava lugar de destaque na garagem. O aniversariante e seus comparsas tinham como obrigação gravar fitas k7 (naquela época a gente não sabia o que era CD...) com as melhores músicas do rádio (...muito menos MP3).

As canções saíam com um começo capenga, na pressa que a pessoa teve para apertar o REC. No meio, sempre tinha a propaganda da rádio (no meu caso era Traaaansamérica) e, no fim, a voz do locutor tagarela que não esperou a faixa acabar para retomar a locução.

Em uma boa coletânea dançante não podia faltar: "Harry Houdini" do Kon Kan, "A Little Respect" do Erasure e "Move This" do Tecnotronic. Na parte romântica, os hits eram "Right Here Waiting" do Richard Marx, "Cry For Help" do Rick Astley e "Heaven" do Bryan Adams. Cruzes.

Quem sabe a grande festa do Garotas não poderia retomar a tradição da garagem? O duro será escolher uma, agora que nós três moramos em apartamentos ou condomínios. E os convidados teriam de acotovelar uns aos outros por alguns centímetros de espaço. Ou você vai furar, leitor? Daí também nós não vamos no seu níver.

Vivi Griswold às 10:16 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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