segunda-feira, 17 de novembro de 2003

Bem do seu tamanho

Uma das maneiras de saber que você cresceu é observar o resultado daquela tática que pais bacanas usam com a prole, marcando na soleira da porta a altura de cada um dos irmãos na passagem de ano ou no dia do parabéns a você.

Mas há muitas outras formas de perceber que você não cabe mais na roupa que cabia e não enche mais a casa de alegria, como diria a música dos Titãs.

Outro dia me peguei dizendo "vai com Deus" para meu irmão, prestes a sair de casa para um passeio com seus amigos Dudus (é que acho que todos eles se chamam Dudu). "Vai com Deus", por Alá!, é a expressão mais comumente encontrada nas bocas das velhinhas da família, que a proferem para proteger a prole de alguma maneira mística.

Quando você passa de mera ouvinte da frase a proferidora, significa que algo aconteceu. Daqui a pouco, estão me pedindo "bença, tia". Aí vai ser de fato apavorante.

E ontem, vendo antigas fotografias com amigos, me peguei dizendo: "olhem essa, onde o Denis ainda tinha cabelo!" E ele: "nossa, pensei que era meu irmão". Quer maior sinal de velhice que isso, se confundir com o próprio irmão (mais novo, é claro) numa foto?

No condô para onde me mudei há pouco menos de dois meses, sou conhecida como a mulher do "tio da casa fashion". Demora nada para começarem a me chamar de tia também. E eu só tenho vinte e cinco, pô!

Mas, por outro lado, também passo, às vezes, por uma garotinha "de menor", como gostam de dizer alguns membros da corporação conhecida por pê-eme. Duas ocasiões atestam o fato. A primeira: quando bati o indefectível Deep Purple, o senhor polícia me perguntou: "para onde você está indo, menina? Para a escola?". Quisera eu.

A segunda: antes de finalmente fechar negócio no condô onde hoje estou muito bem estabelecida, obrigada, passei pela tradicional maratona de visitação imobiliária. Até colecionava aqueles panfletos de farol que a Vivi detestaria entregar.

Num dos empreendimentos, o corretor olhou para mim, olhou para o namorido e sacou da frase: "mamãe sabe que você está aqui procurando apartamento?". Com direito a essa linguagem tatibitati e tudo. Pode?

Decidam-se, afinal, se sou grande ou pequena, antes que eu saia numa jornada para descobrir qual é meu tamanho junto a um boi de mamão e um garoto com apelido estranho. Igual à protagonista da história assinada pela fada Ana Maria Machado, da qual emprestei o título deste texto.

Clara McFly às 06:39 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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· Vivi Griswold