sexta-feira, 14 de novembro de 2003

Hoje o dia está nublado

Quando eu estava às voltas com o vestibular, afundada em livros e decorando fórmulas de Química coladas nas paredes do quarto, costumava pensar na época em que a escola era uma grande brincadeira e toda a dificuldade da lição consistia em ligar o patinho perdido à mamãe pata.

Se pararmos para analisar, o período da pré-escola até a primeira série do ensino fundamental é uma grande e cruel fantasia. Pense bem: você é matriculado numa escolinha colorida, com tias que ensinam musiquinhas e aulas cheias de massa de modelar e tinta para dedos. Você pensa "puxa, como isso é legal". Mas quando menos se espera, chegam a Trigonometria e a Genética e a Cinética jogando toda a alegria pelo ralo.

Agora eu sou uma profissional formada. Mas continuo achando que a escola tem que ensinar a ler, a escrever e a fazer as quatro operações matemáticas. Só. A vida não exige muito mais que isso não - claro que algumas profissões podem pedir mais conhecimento, como engenharia e medicina. A minha exige ler e escrever. Quanto às quatro operações, basta saber somar e pronto.

Daí, contando que nós, cidadãos brasileiros privilegiados, passamos pelo menos 11 anos em uma sala de aula, e que não leva mais do que 1 ano para ensinar leitura, escrita, soma, subtração, divisão e multiplicação para uma pessoa, temos 10 anos para... brincar! E para cantar a música do lanchinho, escrever redações "minhas férias" e plantar feijão no algodão molhado!

Ao invés dos colégios terem nomes pomposos homenageando ilustres desconhecidos, todos poderiam ser chamados de "Recanto do Sol", "Sossego da Mamãe", "Turminha da Pesada", "Piu-Piu", "Anjinhos" e outros nomes fofos usados para intitular escolinhas. Imagine, alguém perguntar "onde você cursou o ensino médio?" e ouvir como resposta "no Pingo de Gente".

Poderíamos só escrever com lápis e, no começo de cada dia, fazer um cabeçalho com letra redonda "São Paulo, 14 de novembro de 2003. Hoje o dia está nublado" e desenhar uma nuvenzinha cinza ao lado. E o único livro que iríamos carregar seria a cartilha. A minha era a "Caminho Suave" e eu simplesmente ficava fascinada por ela - só não gostava da parte do V, que tinha a vaquinha Vivi. Droga.

Teríamos aula de culinária onde faríamos biscoitinhos de aveia, aula de Educação Artística com muita colagem e pintura de aquarela e aula de jardinagem. Depois da merenda e do recreio, teríamos um tempinho para a soneca. A avaliação seria feita com estrelinhas douradas coladas nos trabalhos e o material didático viria encapado com plástico xadrez (vermelho para meninas e azul para meninos).

Tá bom... Confesso que muita coisa que aprendi nos muitos anos de colégio foi útil. Nem tanto para minha vida profissional, mas para a pessoa que sou hoje. Se passasse a vida na escolinha dos meus sonhos, não teria descoberto minha paixão pela História e Literatura, nem teria tido vontade de rodar o mundo a partir das aulas de Geografia.

Mas que tudo poderia ser mais simples, ah, isso poderia. Como ligar os pontos, fazer bonecos com embalagem de Yakult e colorir o telhado da casinha desenhada.

Vivi Griswold às 10:30 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
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