Quase todos os rock-pop stars têm fama de afeitos à água que passarinho não bebe. Onde há fumaça, há fogo, e daí concluímos que boa parte da lenda vem do fato de que muitos deles são chegados mesmo a uma garrafa.
Algumas pessoas vão além e começam a associar os vícios à criatividade. Pura bobagem. Tem gente que gosta de dar uns tragos a mais ou a menos em toda classe, categoria e camada social. Além do mais, se fosse assim, o Nova Gerty seria o maior celeiro de artistas do mundo, visto que o bairro tem a mais fantástica concentração de bares e botecos que já vi na vida. Deve ter mais ou menos 1,8 boteco por habitante por ali.
Groselhas à parte, o rock é pontuado por boas composições inspiradas na cachaça ou nos tóxicos (pronuncia-se "tóchicos", à la Mirtes). Dêem um longo trago, passem a bola e acompanhem-me na breve lista das canções mais alcoolizadas (ou outras coisinhas mais) do repertório rock-pop contemporâneo.
7. Crazy Mary, Victoria Williams
Regravada pelo Pearl Jam, a balada triste conta a história de uma mulher consumida pelo vício. O refrão melancólico "Take a bottle, drink it down/ Pass it around" ("Pegue a garrafa, dê um gole/ Passe adiante") é de cortar o coração.
6. Bebendo Vinho, Wander Wildner
Essa ganhou cover do Ira! e discorre sobre o abandono e o apoio na garrafa. Parece triste, mas o cinismo característico do pai do "Surfista Calhorda" dá um estranho toque cômico aos versos "Vou me entorpecer bebendo vinho/ Eu sigo só/ O meu caminho".
5. Dig Dig Dig (Hempa), Planet Hemp
Como o samba, essa é a banda de uma nota só. O nome da trupe já deixa claro a que o Planeta Maconha veio. Nessa, como em um punhado de outras composições, os mocinhos comentam os benefícios da erva danada. Segundo eles, o tal do capim cura até dor-de-dente!
4. Brown Sugar, Rolling Stones
Reza a lenda que, embora aparentemente se trate de uma moçoila, a canção foi feita em homenagem à heroína – o título é um dos apelidinhos da substância que levou Uma Thurman à overdose em "Pulp Fiction".
3. Mr. Tambourine Man, Bob Dylan
Linda de morrer, a canção foi escrita por Dylan como referência ao traficante que o atendia (Viu? "Mentes Perigosas" também é cultura!). Depois de encontrar com o tocador de pandeiro, o cantor se sentia pronto a encarar o dia. Os Byrds fizeram uma cover bacana.
2. Lucy in the Sky with Diamonds, Beatles
Não adiantou John Lennon desmentir a lenda urbana que dava conta de que a música se referia ao LSD (coincidentemente – ou não – as iniciais do título). Fico com a voz do povo, mesmo porque é duro imaginar uma garota com olhos de caleidoscópio, táxis de jornal e céus de marmelada sem um, digamos, catalisador químico.
1. One Bourbon, one Scotch, one Beer, John Lee Hooker
Hino dos roitmanns assumidos, a música deve ser o terror do pessoal do AA. A pérola foi composta pelo malvado-até-o-osso George Thorogood, por sua vez baseado (sem trocadilhos, por favor) em outra canção do tiozão roitmann e blueseiro. Pelo jeito, Joãozinho não estava nem aí com a receita básica de não misturar destilados e fermentados. E se deu bem com isso: morreu aos 80, feliz e na ativa.
Ele era parente da Heleninha?