Não foi apenas uma caixa. Foram muitas caixas e sacolas bem grandes. Tudo o que eu tinha juntado em todos esses anos, tudo o que eu tinha orgulho de deixar à mostra e tudo o que eu havia escondido no fundo do armário por algum motivo. Pequenos fragmentos de lembranças empilhados em caixas enormes. Assim eu passei a tarde, juntando caquinhos da minha antiga vida para tentar encaixá-los na nova etapa.
A viagem atrasou a temida arrumação do meu ex-quarto e só agora estou começando o processo. Pressionada principalmente pela minha irmã, a herdeira daquele cantinho roxo e amarelo ainda cheio de tralhas de outra pessoa - no caso, eu.
Cada item que encaixotava era uma historinha que passava pela minha cabeça e um espirro que me atacava por conta da poeira. Algumas das historinhas eu vou contar. Já os espirros eu vou deixar pra lá.
Os livros
Nunca imaginei que eu tivesse tanto livro. Quando eu abri a parte de cima do armário e comecei a tirar os volumes ali de dentro, pensei que logo acabaria. Mas depois de meia hora ainda estava retirando obras e mais obras. Pelo menos encontrei toda a minha coleção da Lygia. Achei alguns do Nick Hornby, alguns de jornalismo, muitos clássicos em inglês que eu comprei na última Bienal por um precinho camarada. Achei "O Menino Maluquinho" e o primeiro volume do "Onde Está o Wally?". Achei um monte de livros de fotografia e um de poesias expostas no metrô de Londres. E, para a minha alegria, achei meus livrinhos do Millôr, inclusive "Fábulas Fabulosas", que vai virar texto assim que eu conseguir encontrá-lo de novo. Também tive de folhear um por um para jogar fora o lixo escondido. E tinha muito: folhas secas, papéis rabiscados com telefones desconhecidos e até um adesivo do site onde eu, Flá e Clá trabalhávamos.
As pastas da faculdade
Todos os quatro anos de PUC couberam em duas pastas de elástico grossas, soterradas no armário como achados arqueológicos. Ali estavam meus cadernos, meus trabalhos, meus fanzines e todas as dezenas de livros xerocados sobre assuntos que não são mais familiares. Fiquei pasma ao ler os nomes das matérias que eu tive: Teoria do Texto Jornalístico, Teoria da Comunicação, Telecinejornalismo e a misteriosa ASAV, que eu nunca soube o que era, nem naquela época. Para quê tantos nomes diferentes, se todas eram iguais... Meus trabalhos me fizeram lembrar da CDF que eu sempre fui. Só notão, fui até mostrar para a mamãe de novo para ela se orgulhar. Mas não tive saco de ler (será que os professores tiveram? Coitados). E agora virou tudo história, porque a papelada foi direto para o saco dos recicláveis. Às vezes faz bem jogar coisas fora.
As fotos
Meu álbum de formatura do primeiro grau eu nem tive coragem de abrir. Só de começar a pensar naquela época congelada do tempo, calafrios subiram a espinha. Foi direto para o lixo, com capa e tudo. Outras fotos de pessoas que não fazem mais parte da minha vida - e, como diz o final de "Conta Comigo", hoje são apenas "rostos no corredor" - também tiveram o mesmo destino. Encontrei muitas fotos dos meus muitos gatos e quase chorei de ver como a Sofia, minha branquinha com mais de seis quilos, era um fiapo de tão mirrada quando a resgatei do abrigo. A pobrezinha só tinha orelha, e agora só tem pança. Também me emocionei de ver como o Nicolau, um persa de dois anos, era o bebê gato mais lindo que eu já vi. Com esses e outros momentos importantes não tive coragem de acabar, então foi tudo para uma gaveta da sala da mamãe - que, a propósito, está precisando de uma limpeza seletiva urgente.
Os bibelôs
Eu já tive duzentos bichos de pelúcia, como toda garota. E meu bichos eram classe A, principalmente por conta dos integrantes da família que moram "no estrangeiro". Da maioria eu me desfiz há anos, mas três tinham ficado. Agora só restou um. O Hirohito, o coelhinho japonês que ganhei de uma querida tia quando eu tinha três anos. Voltando de Tóquio ela me trouxe aquela fofura junto com um par de meias de pompons no calcanhar. O par de meias já sumiu, mas o Hirohito continua firme e forte. Tudo bem que seu macacão xadrez está amarelado e furado em algumas partes... Pô, 23 primaveras é muito tempo na escala de anos dos bichos de pelúcia. Ele veio comigo para o apartamento como testemunha viva (tá, nem tanto) de todas essas historinhas. E de muitas outras, que eu não vou contar para não acordar os espirros.