Agora que contraí matrimônio, como atesta o papelzinho que me foi entregue pelo juiz de paz logo depois que eu disse "sim", posso dizer que os primeiros meses da vida de casada, além de deliciosos, algumas vezes também guardam situações engraçadas.
Pelo menos três episódios do meu mês e meio de casamento são dignos de nota. Há um mistério, um banho esquisito e uma vizinha às voltas com os hormônios típicos da adolescência. Isso sem contar as vezes em que precisei ligar "em casa" e, mensagem essa enviada do meu cérebro aos meus dedinhos, acabei discando para a casa da mamãe. É que "em casa" ainda é uma expressão dúbia para mim...
Mas, voltando ao assunto, aconteceram algumas coisas curiosas por aqui desde que me mudei. Olha só.
O sumiço do garfo
Eis que no inevitável chá de cozinha que minha irmã organizou, ganhei um conjunto de talheres de uma das minhas tias favoritas. A caixinha continha seis exemplares de cada espécime, a saber: garfos, facas, colheres de sopa e colheres de chá. Umas duas semanas depois do casamento, eis que estávamos lavando e enxugando a louça quando me dei conta de que o porta-talheres contava seis colheronas, seis colherinhas, seis facas e... cinco garfos. Até hoje não sei onde foi parar o diabo do sexto garfo. Dessa forma, não posso convidar mais de cinco pessoas para jantar aqui, a não ser que o prato principal seja sopa – aí o número máximo de convivas sobe uma alma.
O banho com água mineral (sem gás)
Logo na primeira semana de vida a dois, eis que chego em casa mais tarde, depois de um encontro com as Garotas. Fiquei horas tagarelando com o namorido no sofá, até que, lá pela uma da manhã, decidi tomar banho e me recolher; afinal, o dia seguinte era preto na folhinha. Mas qual não foi minha surpresa ao abrir o possante chuveiro e... nada. Não caiu uma gota sequer. Não tinha mais água nem na caixa do condô. E, à uma da manhã, é impossível conseguir uma ducha emprestada, mesmo que eu já conhecesse os vizinhos. Botei o roupão e fiquei dez minutos andando para lá e para cá, amaldiçoando todo o sistema de abastecimento do B do ABC paulista. Até que o namorido deu a idéia: por que não utilizar o único volume de H2O disponível em casa, o do galão de água mineral? Virei minha salvação na panela de pressão, cuja estréia foi esquentando água para o meu banho (de bacia) no dia.
A vizinha com hormônios em ebulição
A primeira reunião de condô realizada depois que mudamos foi prestigiada, muito a contragosto, pelo meu namorido. Foram quatro ou cinco horas de discussões, das quais mais ou menos quarenta minutos úteis, três ou quatro horas de baboseiras e groselhas e quinze minutos com a história mais sensacional de que já tive notícia num desses eventos. A certa altura da reunião, quando o tópico era a colocação de portas padronizadas nos vãos debaixo das escadas que levam às casas, surge uma condômina indignada: "É bom colocar tampar esses vãos mesmo, porque outro dia abri minha porta e dei de cara com duas crianças com as calças nos joelhos, debaixo da escada em frente à minha casa!".
Bastou para diversas mães (e Mirtes) começarem a se defender: "Mas se o problema é com meu filho, quero que venha falar na minha cara!", enquanto outros presentes faziam piadinhas e engrossavam um coro de "uêpa!". Não bastasse esse acontecimento surreal e um bando de condôminos maiores de idade e vacinados agindo como se fossem a 5a série "E", ainda por cima, ao voltar para casa, o namorido é abordado por uma pré-adolescente afobadíssima: "Tio, já acabou a reunião?" E ele: "Não, mas falta pouco..." E ela, enrolando as pontas dos cabelos entre os dedos como quem não quer nada: "Por acaso, assim, falaram alguma coisa sobre as escadas?..." E ele, já rindo: "Rá! Foi você!" E ela, desconversando: "Não, não!" E ele, apontando: "Fica esperta, viu?".
Acho que ela ficou, já que não peguei nenhum agarramento pré-adolescente por aí. Pelo menos até agora...