quarta-feira, 29 de outubro de 2003

O rei da cocada preta

Diz a lenda que não se pode ser bom em tudo que se faz. Pois eu acho que há um senhor que prova o contrário – ou é a exceção que confirma a regra. Essa criatura sabe tratar a língua portuguesa com um esmero e uma habilidade que nunca vi.

Ele é justo e generoso com a bela última flor do Lácio. Nota-se por sua obra, que vai de peças e músicas, adultas e infantis, a livros, tudo impecável. Ou, para emprestar palavras suas usadas no mais fresco romance, ditas pela boca de Vanda sobre o livro de Kaspar Krabbe (mas nem tanto – quem leu vai entender), pode-se dizer que o cara em questão é "absolutamente admirável".

Nascido no Rio, em 1944, o petiz era o quarto dos sete filhos do historiador e sociólogo Sérgio e da pianista Maria Amélia. Eu não sei o que essa mulher pôs no mingau do moço para ele ficar tão esperto assim!

Aos 14 anos, já morando em São Paulo, ele foi repreendido no colégio por desfilar com um raro exemplar da primeira edição de Macunaíma, apanhada na estante do seu pai. No ano seguinte, compõe sua primeira música, intitulada "Canção dos Olhos". (Se eu tivesse olhos como aqueles, também escreveria uma música com esse nome).

Lá pelos 17, publica suas primeiras crônicas, no jornal da escola. No mesmo ano, faz sua estréia nas páginas de um grande jornal: é preso depois de furtar um carro com um amigo. Os dois queriam dar umas voltinhas e planejavam devolver o fruto do butim depois, mas os tiras foram mais rápidos. A foto do serelepe foi estampada no periódico e rendeu-lhe um castigo de um ano.

No vestibular, assinala a opção por Arquitetura. Cursa três anos na FAU da USP, mas desencana de projetar cidades - para ele, de "Cidades", só o álbum de 1998.

Em 1964, começa a se apresentar em festivais e… bem, daí para frente, são só pérolas: da crônica musical descompromissada "A Banda" às clássicas "Construção" e "Cotidiano", passando pelas não menos excelentes "Bye Bye Brasil", "Partido Alto" e "Vai Passar", a sacadíssima "O que Será (À Flor da Pele)", as romanticamente femininas "O Meu Amor" e "Atrás da Porta", a belíssima "Eu Te Amo" e a impagavelmente intitulada "Ilmo. sr. Ciro Monteiro ou Receita pra Virar Casaca de Neném", com uma história ótima de como transformar uma camisa do Flamengo, dada de presente à sua filha por um amigo, num belo uniforme do Fluminense, time de coração do artista.

Isso sem contar as adaptações de todas as músicas do absoluto clássico "Os Saltimbancos", que são a porta de entrada para a obra desse notável compositor-escritor-cantor-tímido-e-bonitão, no caso das pessoas nascidas de 78 para depois, como eu.

Em 1986, ele deveria fazer a letra da canção "Anos Dourados", encomendada pela Globo para a minissérie homônima. Tom Jobim já tinha providenciado a música e nosso homem demorou tanto para escrever os versos que a TV exibiu a minissérie com o tema sem letras. E ele arrematou, explicando o atraso: "A minissérie é que foi precipitada".

Precisa dizer algo mais sobre esse cara? Ah, sim, precisa: sua graça, se é que alguém ainda não notou de quem estou falando, é Francisco Buarque de Holanda – ou só Chico Buarque.

Enquanto sorvo as últimas dez páginas de Budapeste, seu livro mais recente, tive de escrever sobre seu autor. A brochura em questão coroou a paixão desta humilde escriba pelo cara dos olhos cor de ardósia, conforme descreve o B.O. de sua prisão estampado na capa do "Paratodos".

Sabe aqueles livros que a gente devora em dois dias e, quando o maço de páginas restantes míngua já próximo ao fim, começamos a "economizar", para que o prazer daquela leitura dure um pouco mais? Pois essa é a razão de eu estar gravitando entre as vinte últimas páginas de Budapeste há três dias…

E torçam para eu não acabar logo. Pelo andar da carruagem, depois de virar a última página, tenho certeza de que pensarei seriamente em nunca mais escrever. Não depois de ter lido aquilo.

chicobuarque.jpg
Como se não bastasse, ele ainda é bem apanhado – e desde mocinho!


Clara McFly às 05:34 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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