terça-feira, 28 de outubro de 2003

20 dias pensando alto

Começou em Santiago e terminou em Cochabamba. No meio, um mundaréu de paisagens: o deserto mais seco do mundo; a vila feita de barro onde preguiça é lei; a cidade que nunca viu chuva; o lago navegável mais alto do planeta, o marco de uma civilização perdida. Num mesmo período, passei o maior frio e o maior calor da minha vida. Também vislumbrei a noite mais estrelada e o céu mais azul. E o que dizer daquela lua?

Todo o turbilhão de sensações ainda era multiplicado pelo fato de estarmos a alguns mil metros de altitude, sempre embalados pelo som da incansável flauta andina tocando dia e noite o hit supremo "El Condor Pasa". Mesmo se eu não quisesse ter entrado no clima, seria tarefa difícil deixar de me apaixonar pelos lugares e pelo povo desse nosso continente que fala castelhano - e aymara, quechua e mais um monte de outras línguas bonitas.

Como estava dizendo, começou em Santiago, capital do Chile. A cidade é bonita, mas para quem mora em São Paulo não há grandes novidades. Tem muita praça e um parque gostoso. Porém, a tal vista dos Andes que os guias de viagem adoram mostrar fica mesmo só no papel, uma vez que as montanhas nevadas permanecem a maior parte do tempo encobertas pela poluição local. Foi lá que eu entrei pela primeira vez num Starbucks e agora sigo sonhando com o Iced Chai.

Saindo da civilização, o negócio foi tomar fôlego e tirar ânimo até da unha do mindinho para aturar uma viagem de ônibus de quase 22 horas até uma vila chamada San Pedro de Atacama - isso mesmo, no meio do deserto famoso por ser o mais seco do planeta. Depois de alguns comprimidos de Plasil (sou que nem cachorro, enjôo no carro, sabe?), de alguns CDs dos Beatles e de algumas partidas de paciência no palmtop, chegamos. E não queria mais vir embora.

Quem me conhece sabe que eu não tenho nada de hippie. Porém, San Pedro me fez querer largar tudo, montar uma casinha de adobe com um pátio ensolarado e florido, ter dez gatos livres de grades de apartamento, passar os dias descalça, fazendo artesanato e comida vegetariana. A vila é uma meca de mochileiros, e os gringos nas ruas de terra fazem com que o lugar vibre com um zunzunzum cultural. Não tem banco, mas tem Internet café.

Só para dar uma idéia, entrei num restaurante e pedi uma empanada. A dona, uma escandinava que teve o mesmo pensamento que o meu - mas a coragem que eu não teria -, anotou o pedido e foi... fazer a massa! Eu olhei e lá estava ela pegando a farinha, amassando com o leite, abrindo com o rolo. Na maior calma. Assim é San Pedro.

A vila foi o ponto de partida para diversas excursões, como o Valle de la Luna, os geisers del Tatio, as lagoas altiplânicas e o Salar do Atacama. Tudo supimpa. De lá, seguimos para Arica, a cidade onde nunca choveu. Também foi só para ir até o parque nacional Lauca e ver de perto a fauna local, composta de lhamas, alpacas, vicunhas e umas chinchilas selvagens muito gordinhas.

Saindo do Chile, dissemos "hola" ao Peru, tudo sempre no bom sentido. Estava mais empolgada que criança na hora de ganhar o saquinho surpresa, porque para essa viciada em Discovery Channel o melhor de uma viagem é a História, assim mesmo, com H maiúsculo. E Cusco tem isso e muito mais. Além de uma catedral de cair o queixo, ruas estreitas feitas de pedra inca, mulheres vestidas tradicionalmente com bebês nas costas, Cusco tem Machu Picchu. Precisa mais?

É lugar-comum falar que Machu Picchu é inacreditavelmente surpreendente? É, não vou mentir para você. Eu juro que tentei encontrar outras descrições para aquela cidade perdida no meio da selva, no topo de uma montanha. Mas não consegui. Depois dos dois ônibus e do trem para alcançar o sítio, é só subir uma escada de pedra e ter toda aquela belezura se descortinando na sua frente. E o melhor: estava um dia clarinho, clarinho. Perfeito.

Deixar Cusco foi difícil, mas o lago Titicaca nos chamava. No Peru, onde existem as estranhíssimas ilhas flutuantes, Los Uros, feitas de palha seca pelas mãos dos indígenas (que fazem da mesma forma suas casas e barcos). Na Bolívia, mais precisamente em Copacabana (!), lugar essencial para quem quer visitar a Isla del Sol, de onde Manco Capac, o primeiro inca segundo a lenda, teria surgido e dado início ao Império.

Do azul profundo do Titicaca até La Paz, quanta mudança! Ainda mais porque a minha visão da capital boliviana foi de dentro de dois ônibus seguidos, o último indo para Cochabamba, onde pegaríamos o vôo de volta a São Paulo. Não vou reclamar, ambas as cidades estavam longe de parecerem acolhedoras.

Enfim, aqui estou eu, sã e salva. Mais salva do que sã. Com o ombro queimado de sol, algumas bolhas no pé, uma gripe terrível, a pele ressecada e quase mil fotos a serem editadas. Sabe do que mais? É ótimo ir, mas é muito melhor voltar. Que bom que fui... e que bom que voltei!

vivi.jpg
O que é um pontinho vermelho numa pedra?
Sou eu em Machu Picchu!
Vivi Griswold às 12:13 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold