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Sêo Penhor Reza a lenda que Henfil, moço que dispensa apresentações, achava que o belo Hino Nacional Brasileiro começava com "O virundum Ipiranga as margens plácidas..." e etcetera e tal. Pelo menos ele usou isso em alguns desenhos – não se sabe se a bola foi cantada por Paulo Francis ou não. Daí o nome do site dos nossos amigos virtuais do Virunduns, que reúne as maiores escorregadelas na hora de interpretar uma letra cantada. Pois não é que eu também cantava nosso hino com diversas passagens, por assim dizer, mal compreendidas? Além do mais, quem sou eu para tirar a razão do Henfil? Outro dia estava no sofá, diante do encerramento das transmissões da TV Cultura, que fecha com a tradicional execução dessa interessante canção-e-símbolo-nacional, quando percebi que há vários trechos do hino que eu cantava errado quando ainda era uma alegre petiz sem os dentes da frente (agora sou uma alegre petiz com impecáveis dentes da frente, graças ao uso de um aparelho ortodôntico por sete anos). Logo no comecinho, bem depois do Henfil, eu achava que o que se ouviu das margens plácidas do Ipiranga foi o brado retumbante de um povo herói e cobrado. Saca? "Ouviram do Ipiranga as margens plácidas/ De um povo herói cobrado retumbante". Não me culpem. Ao pé de cinco ou seis primaveras, que subsídios tinha eu para entender as palavras "brado" e "retumbante"? Em seguida, vinha um tal de "sêo Penhor". Na minha mente pueril, devia ser um cara muito importante para estar no Hino, esse tal de senhor Penhor. Mas nem tanto, já que dava para chamá-lo de "sêo", que é um pronome de tratamento, por assim dizer, suburbano por excelência – e, por conseguinte, um tanto quanto íntimo. Que "Se o penhor dessa igualdade", que nada! O que pegava era o sêo Penhô. Sigamos. O virundum final do Hino fica espelhado na grandeza da nossa terra, que pelo que eu entendia era dourada. "Se o teu futuro espelha essa grandezaaaa! Terra dourada". E, embora eu ame o hino desse nosso país, cá entre nós, prefiro minha versão. Não é muito mais bonita uma terra dourada? Ainda mais diante de um espelho! Ia ser um brilho que só vendo... Isso sem contar que eu achava que "florão da América" era uma flor grande e "impávido colosso" devia ter algo a ver com pás (dessas de cavar) e aquela famosa montanha-russa do Playcenter. Mas lembrar dos meus virunduns hinários foi barbada. O pior foi perceber que ainda há trechos da música que não compreendo. Não é que eu não saiba a letra – impossível, depois de quatro anos de primário vendo toda a transcrição na contracapa do meu caderninho (e quem não teve um caderno com o Hino atrás que atire a primeira pedra). O fato é que me escapam os sentidos de algumas frases. Sei que uma breve ida ao dicionário resolveria, mas às vezes eu gosto de não saber. Dá margem para mais interpretações malucas. Garrida, por exemplo. O que é a terra mais garrida? E por "nossos bosques têm mais vida" entre aspas? É irônico? É citação? Que diabos! Mas tem outra que nem o dicionário, tampouco a internet não explicam, e para mim é a grande pergunta que não quer calar desse nosso símbolo nacional: afinal, "de amor e de esperança a terra desce"... mas para onde? Clara McFly às 05:08 PM |
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