Para quem ainda não sabe, eu trabalho numa redação especializada em programação de televisão. Parte do nosso trabalho aqui é criar fichas dos filmes que estréiam na TV para um banco de dados, incluindo aí título original, sinopse e gênero. E falo com conhecimento de causa: “Os Excêntricos Tenenbaums” é um dos filmes mais difíceis de se classificar.
O que botar naquela caixinha: drama ou comédia? A película, estrelada por Gene Hackman, Anjelica Huston, Gwyneth Paltrow, Ben Stiller, Bill Murray, Danny Glover, Luke e Owen Wilson e um monte de ratinhos (você já vai entender), dança o tempo todo entre esses dois climas opostos com maestria – e por isso mesmo já é um dos meus filmes favoritos da década.
A premissa é simples: Gene é Royal e Anjelica, Ethel. Eles formam um casal com três filhos, promissores talentos em áreas diversas. Eles se separam e, aparentemente, tudo segue bem no crescimento dos pequenos. Mas algo dá muito errado no caminho, e os três viram adultos estranhíssimos.
Quando Royal diz que está com uma doença terminal, ele volta a morar na casa dos Tenenbaums. E os três pimpolhos, já grandinhos, também retornam para o lar da mamãe – que está prestes a se casar com seu contador, papel de Danny. É a chance que todos precisavam para se acertar de uma vez por todas entre si – e com os macaquinhos que habitam suas cacholas.
Se de perto ninguém é normal, os Tenenbaums são estranhos já de longe. E por isso constituem o material de um dos filmes mais bacanas dos últimos tempos. Quer dizer, por isso e pelas sete razões que seguem abaixo...
7. Todo personagem usa as mesmas roupas do começo ao fim
Sim, eles são praticamente caricaturas de gente. Por isso, desde pequenos, se vestem basicamente da mesma maneira. Como a Turma da Mônica, manja? Margot tem um inseparável casaco de pele; Chas usa só agasalhos adidas e Richie não tira nunca a faixa de tenista da cabeça, só para citar o exemplo do trio de filhos.
6. A seqüência em que Royal comunica à ex-mulher que está morrendo
Só o trecho vale a locação: Royal encontra Ethel na rua e diz que está no bico do corvo. Ela começa a chorar e ele volta atrás. Ela dá umas bolsadas nele e ele volta a dizer que está para bater as botas. Até que ela pergunta, afinal, se ele está morrendo ou não. Tudo isso na frente da embaixada de algum país oriental, que fica ao lado da casa dos Tenenbaums.
5. Bill Murray parece o Jô Soares magro
O ator interpreta Raleigh St. Claire, um afamado psicólogo casado com Margot, que encabeça uma pesquisa com um garoto para lá de hilário. Mas o melhor é que, estranhamente, ele está caracterizado igualzinho ao Jô – depois, é claro, de uns bons pares de anos num spa.
4. A seqüência em que o Jô Soares magro descobre o passado de sua mulher
Ao som de “Judy is a Punk”, dos Ramones, o diretor Wes Anderson desdobra, numa edição de cenas frenética, o passado de Margot. Tudo porque, a certa altura, o psicólogo desconfia da fidelidade de sua cônjuge e decide contratar um detetive particular. Antes nem tivesse perguntado...
3. Os ratinhos-dálmatas
Na infância, Chas (Ben Stiller) desenvolve uma espécie de ratinho branco transgênico. O barato é que os roedores são todos pintadinhos, feito os cães que Cruela queria transformar em casaco. A invenção do petiz vende que nem água e ele começa uma criação do novo espécime em casa, o que deixa a residência Tenenbaum coalhada de ratinhos-dálmatas.
2. Gene Hackman
Ele merecia muito a indicação ao Oscar de ator pelo papel. Mas o que esperar de um prêmio que brinda Julia Roberts no ano de Ellen Burstyn em “Réquiem para um Sonho” e Gwyneth no ano de Cate Blanchett em “Elizabeth”? Gene Hackman, durante aqueles 110 minutos, É Royal Tenenbaum – e pronto. Ninguém me tira isso da cabeça. O filme foi indicado para roteiro original (feito pelo próprio diretor e por Owen Wilson), espécie de prêmio de consolação de uma Academia retró demais para uma história tão boa. ..
1. Pagoda
Interpretado por Kumar Pallana, ele é uma espécie de secretário do lar da família Tenenbaum desde os primórdios da trupe. Além de ser uma atração à parte – e ter esse nome exótico –, Pagoda também conheceu Royal em circunstâncias para lá de inusitadas. E já esfaqueou o chefe (!) duas vezes (!!). Precisa dizer mais?

Retrato de família: diga "alô" ao Pagoda, ali no cantinho!