quinta-feira, 23 de outubro de 2003

Falastrões ao microfone

Tudo o que você precisa caso queira montar uma banda de sucesso é um vocalista com dois parafusos a menos e voz interessante. Mas eu fico pensando... por que essas figuras precisam sempre acumular as funções de líder, porta-voz, ídolo das menininhas e quebrador de quarto de hotel?

Um dia eu já contei aqui sobre minha predileção por baixistas. Soou meio groupie? Mas não foi essa a intenção. Acontece que eu sou devota de personalidades discretas. Daí achar que os vocalistas, em geral, caíram do berço quando bebês.

Vou pelos exemplos que me vêm na cabeça de imediato. Bono Vox, hoje, é aquele irlandês quase de meia-idade com voz de travesseiro e um adorável interesse pelo próximo. Já não lembra muito o cara que puxava garotas do público e lhes tascava um beijo cinematográfico na boca. Curiosamente, o U2 também já não provoca tanto frisson quanto antes. Coincidência? Não. Uma banda precisa de seu showman sempre pronto a transgredir.

Vide o caso de seo Axl e o Guns N’ Roses. Bastou o rapaz (que antes gritava como boi no abate e saltava pelo palco feito uma pulga bêbada) ganhar uma barriga e todo o sucesso virou luz. Chato constatar que ninguém dava a mínima para o resto do grupo ou sua competência musical (?). O negócio era mesmo a performance alucinada de Axl “Cabelos de L’Oreal”.

Dizem também que o Freddie Mercury carregou o Queen nas costas – mas que injustiça. Tudo bem, aquele estilo “não tão macho pacas” era ótimo e empolgante, e ele cantava como poucos, mas a banda sempre foi mais que isso. E daí o moço morreu, e daí o Rainha foi parar na geladeira. Coitado do John Deacon, ele era muito bom (baixista... ok, eu sou meio insistente).

Na seara nacional, só vou me atender a um caso especial: Nasi e o Ira!. Dentro dos limites desse país, eles são meus prediletos. O sujeito que empunha o microfone chega a me emocionar – ainda mais hoje em dia, quando os gorós em excesso deram um timbre rouco e sexy ao Nasi. Mas poxa, por que só ele aparece na tv, nas revistas? Edgar Scandurra, deus em forma de homem que toca guitarra, também faz parte da banda, viu??

O estilo dos vocalistas é mostrado de forma sublime e definitiva naquele filme incrível que eu não canso de indicar: “The Commitments”. Deco, o dono do mic, canta como o diabo, e por saber disso tem uma personalidade infernal – mas encanta os fãs assim que abre sua boca suja. Uma das garotas até chega a dizer “Ele é um porco, mas não tem voz de porco... Dizem que a voz dele vem de deus”. Ao que outra moça mais lúcida responde: “Bom, deus deveria pedi-la de volta”.

Fla Wonka às 02:20 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
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· Vivi Griswold