Olha, eu não chego a ser uma Mirtes, a vizinha fofoqueira que passa o dia na janela só reparando na vida dos outros. Mas devo admitir que sou bastante intrometida - na verdade, um pouquinho intrometida, já que também tenho um certo grau de desconfiômetro e sei engolir minha curiosidade quando vejo que existem muitas coisas que simplesmente não são da minha conta.
Mas ô, e a pulguinha atrás da orelha quando me deparo com os casos abaixo?
Ver gente chorando em público
Que desespero me dá quando encontro uma pessoa chorando na rua, ou num shopping, ou no banheiro feminino. Na hora eu começo a pensar no motivo que levou àquela reação. Uma briga com o namorado? A notícia de que um parente faleceu? Em um misto de curiosidade louca e uma leve compaixão, o problema é que não consigo deixar de ficar encarando. Quem sabe a pentelha aqui não encontra uma pista para desvendar o mistério?
Sentir cheiro de comida dos outros
Sair no corredor do prédio e sentir o aroma do almoço ou da janta do vizinho também desperta em mim várias interrogações. Primeiro, tento desvendar o que está fumegando na panela e cada um dos ingredientes. Dependendo do horário, posso fazer exclamações à lá Mirtes, como "isso é hora de cozinhar peixe?". Depois, passo a me indagar se o rango está bom, se a pessoa vai receber convidados ou se vai ter sobremesa também – quente ou fria?
Passar em frente de uma casa com janela aberta
Quem nunca deu uma espiadela para dentro da casa dos outros quando uma porta ou uma janela está aberta? Eu já, e várias vezes. Fico reparando no guarda-roupa do quarto, no lustre da sala ou nas plantas da varanda. Mas meu dia favorito de espiã é na véspera de Natal. Adoro procurar saber se as crianças estão brincando com os novos presentes, se a família está feliz, se a mesa está enfeitada, se tem alguma tia alterada de tanto beber Sidra Cereser...
Ver alguém lendo um livro que eu não conheço
Sentar ao lado de uma pessoa no ônibus sempre dá motivo para indagações. E se essa pessoa estiver lendo um livro do qual nunca ouvi falar... Pronto, lá estou eu xeretando e tentando pescar uma ou outra frase. Se a leitora tiver em mãos um exemplar de novelas pseudo-picantes, tipo "Sabrina" (que costuma se referir a pênis como "membro"), já começo a pensar que tipo de gente ela é. Vem cá: quem lê um livro desses em público... sei não.
Ver alguém carregando malas ou maletas
Você não tem faniquitos para saber o que diabos existe numa mala enorme e recheada que alguém está levando no ônibus ou no trem? Pois eu tenho - e como! Será que a pessoa vai viajar? Se for, para onde? Hmm, talvez ela seja de outro estado. Daí a dica é prestar atenção no sotaque... Também bate a maior curiosidade quando vejo uma pessoa com a maleta de um instrumento musical que eu não consigo decifrar assim, de primeira. Quase peço para ver...