segunda-feira, 20 de outubro de 2003

Carta ao presidente

Não, pode ficar frio que eu não vou usar esse espaço rosado para mandar recado ao seo Lula. Minha cartinha é destinada a outros – e tomara que a carapuça sirva em vários. Pode ser para qualquer homem ou mulher que se intitule comandante-em-chefe de qualquer loja de brinquedo.

É sabido por aí afora que eu freqüento muito esses lugares. De certa forma, é porque eu tenho quatro sobrinhos e adoro soterrá-los em brinquedos (tia que dá roupa de presente merece passar o fim de seus dias no Carandiru). Mas a verdade verdadeira é: eu amo conferir o que há de novo no mercado de diversão.

O problema é que essas visitinhas só dão dor de cabeça! Alguém aí já reparou no quanto as lojas de brinquedos ficaram chatas, feias e bobas? Claro, estou falando daquelas “de marca”, redes de estabelecimentos aborrecidos que só querem vender objetos, não mexer com a imaginação da molecada.

Por isso tem umas coisinhas que eu queria dizer para a meia dúzia de bocós que manda nesse setor. Sigam-me os bons:

“Não-tão-caro Presi,

Como garota crescida durante os saudosos anos 80, é quase impossível para mim não notar o grande abismo de tristeza e falta de criatividade que se tornaram as lojas de brinquedos hoje. E como garota intrometida que sou também, preciso dizer o óbvio.

Antigamente, ir à uma loja de brinquedo era passeio fantástico. Teve um tempo até, eu me lembro, em que os senhores (seus pais, provavelmente) decidiram deixar a criançada brincar com tudo! Como se faz nos estabelecimentos americanos. Porque, sejamos francos: os ianques são uns bolhas, mas sabem montar lojas divertidas e de encher os olhos. Bom, os ingleses também. E os franceses. Saco, só aqui não tem festa?

Hoje, a cada vez que boto os pés nas suas lojinhas, me sinto perdida. Talvez seja a depressão de saber que meus amigos Playmobils não estarão na prateleira – e isso pode não ser SUA culpa, mas bem que vocês podiam ter feito um protesto, hein? A gente iria ajudar no piquete, claro.

O caso é que, eu imagino, devem existir formas de fazer o templo encantado da garotada voltar a ser... bom, um templo encantado de fato, e não um mercadinho sem-vergonha de produtos manufaturados para menores de 14 anos.

Primeira medida: vamos falar sério, hoje as caixas de brinquedos são empilhadas como latas de ervilha no corredor do Barateiro. Nada mais bobo. Não dá para melhorar a decoração, não? Abrir só uma caixa já ajudava, assim poderíamos ver o brinquedo na mão. Eu gosto de ver com a mão, tá? Imagino que as crianças também, mesmo que seja com a ajuda de um demonstrador.

O que lembra outra coisa: em geral, seus atendentes têm animação de guarda de cemitério e conhecimento nulo sobre brinquedos. Um cursinho para aprender a ser mais acessível e poético não iria mal. Aliás, não é que eu seja a favor de vestir funcionário de palhaço - nem um pouco, por sinal -, mas aqueles uniformes, além de sem graça, assustam até gente grande.

É que também fica difícil parecer uma loja bacana quando a própria marca é capenga. Onde já se viu? Uma das suas juntou azul com laranja na identidade visual. Ah, faz favor! Não dá para engolir azul com laranja nem em roupa de daltônico! Tem outra representada por um solzinho com intenção de ser meigo, mas que dá calafrios. Parece que o lugar é ponto de venda de ecstasy.

Bom, eu acho que a gente poderia combinar o seguinte: vocês tentam melhorar o atendimento, o visual, a iluminação (aquela luz branca de necrotério não incentiva o consumo, sabe?) e botar uma musiquinha engraçada nos auto-falantes. Nós tentamos voltar a freqüentar as suas lojas sem emburrar.

E assim que essa parte estiver resolvida, marcamos a data do protesto para fazer o Cara a Cara e o Detetive voltarem a ter os personagens originais, para trazer o pessoal do Mundo Playmobil de volta e para garantir a derrocada de linhas licenciadas por loiras burras da tv. Nossa, vai ser uma farra, presidente!!!

Obrigada pela atenção e não esqueça a minha Caloi,

Flá”

Fla Wonka às 01:42 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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