Lembra quando você era só um pirralho bobo que achava que seu pai era um super-herói? E que ele costumava combater o crime e salvar o mundo todo dia, mas decidiu largar tudo para formar uma família? E que ele mentia pra você sobre não ser nada disso? Pois é: eu ainda sou boba assim. Porque tenho certeza absoluta que meu pai é isso tudo.
Claro que eu vou aproveitar para contar sobre esse senhor porque amanhã ele completa mais uma primavera. E eu tomei gosto por fazer homenagens para as pessoas que me são especiais no dia de seus aniversários.
De começo, mantenho o que eu disse: há muitos anos, papai deve ter cansado de circular pelos céus salvando gente indefesa e consertar tragédias de mega-proporções. Então, aproveitando que entrou um anjo em sua vida, seo Luiz resolveu virar um homem de família. Mas continuou a ser herói.
O homem é a única pessoa que eu conheço que trabalhou 30 anos numa mesma empresa – e eu garanto que “eles lá” não tinham do que reclamar sobre isso, porque devem ter juntado fortunas incalculáveis graças à competência do meu pai-herói.
Fora isso, ele também reúne as características mais divertidas e bacanas que um pai poderia ter. Eu conto algumas.
“Não bebe nada do copo de ninguém”
Acho que ouvi essa frase, por baixo, umas 724 mil e 500 vezes. Era dita toda vez que eu ia botar o pé para fora de casa, fosse para ir numa festa de madrugada ou à padaria comprar picolé. Vai ver meu pai acha que eu sofro de uma sede incontrolável – ou, pior que isso, que eu sou uma toupeira e vou sair por aí bebendo coisas estranhas dada por gente mais estranha ainda. Bom, o Paps ganhou a briga... me recuso a bebericar qualquer líquido de procedência duvidosa porque morro de medo dele saber e eu ter que ouvir 724 mil e 500 vezes “eu te disse”.
“Te dou um tapa na cabeça que você vai parar no pé”
Essa, então, eu ouvi 6 milhões de vezes... Dizia respeito ao que ia acontecer com a minha integridade física (e as dos meus irmãos, que também não eram lá uns doces de crianças) caso ele tivesse que tomar uma atitude para acabar com a nossa graça. Nunca soube como isso iria acontecer na prática. Será que eu iria mesmo levar um golpe tão forte e virar anã? Bom, nem preciso dizer que preferi não testar a paciência do sujeito.
A Erundina e o Bobô
O papai tem uma mania que podia ser muito chata, mas é incrivelmente engraçada (e eu aprendi a fazer igual, droga): ele adora praguejar. E tem alvos muito bem definidos para os seus ataques. Se ele cair com o carro num buraco – seja na cidade dele, seja no Paquistão –, ele vai xingar de nomes feios a ex-prefeita Luíza Erundina. Não me perguntem por quê, não tem explicação. É como no futebol: se o São Paulo estiver levando um vareio em campo, ele vai excomungar o Bobô (que já não joga no clube faz uns bons 10 anos). Não é pessoal, são apenas nomes pra usar nos momentos de desabafo. Acho...
O homem da máfia
Se meu pai não fosse a versão nacional do Superman, eu diria que ele bem poderia se tornar um mafioso. Quer saber? Ele concorda. Exceto sobre aquela parte de chacinar pessoas – se bem que aquela era uma parte bem grande do trabalho de ser gângster. Minha mãe diz que isso é delírio, e que o papai é tão bom coração, tão querido e tão correto que nunca ia infringir sequer a Lei Seca. Hum... vai ver ela tem razão, e ele é só meio bravo em grau normal. Como eu, que tive a quem puxar no quesito ira.
Fábrica da boa
Por falar em Lei Seca, preciso dizer que meu pai seria um grande contraventor se essa regra vingasse por aqui. Ele fabrica vinho – atualmente até anda plantando suas próprias uvas pra melhorar o produto – e anda se arriscando no ramo da cachaça. Agora vocês me dizem: juntando o fato da minha mãe fazer um pão divino e do meu pai produzir vinho gostoso, dava pra ser uma pessoa infeliz nessa família? Com um super-herói no comando, eu digo que não.
Olha eu junto ao anjo e o Superman!