Já que nos chamam de saudosistas mesmo, vou aproveitar para deixar claro que não fazem mais letras de música como as vistas (ou melhor, ouvidas) nos anos 80. Naquela época as bandas e artistas nacionais de pop e rock não estavam interessados em discursos políticos ou em protestos de qualquer espécie: a moda era se divertir. Daí, até simples canções de amor viravam pérolas que definitivamente conquistaram seu lugar na história. Bem, ao menos na minha história.
Muitos dos nomes mais famosos ficaram prisioneiros daquela década, enquanto outros continuam por aí – mas se antes eram conhecidos pela peculiaridade, hoje se destacam pelo sucesso comercial de músicas bobas, bregas e ordinárias. Felizmente nossa memória ainda funciona e, se depender de nós, os melhores versos dos anos 80 continuarão sendo merecidamente lembrados.
Quer um exemplo? Então vou lhe dar dez:
1) "Eu Sou Free" - Sempre Livre
"Só estudei em escola experimental/ Meu pai era surfista profissional/ Minha mãe fazia mapa astral legal/ Passei a infância em Cochabamba/ Vendendo muamba e driblando a alfândega". Assim começa o clássico do Sempre Livre em homenagem a nós, trabalhadores free-lancers.
2) "Psicopata" - Capital Inicial
Olha aí, uma banda que desandou. Eu nunca gostei muito do Capital, mas tenho que admitir que os versos "Sempre assisto à Rede Globo com uma arma na mão/ Se aparece o Francisco Cuoco, adeus televisão" são excelentes. E, a música em questão, tembém tem uma levada punk bacana.
3) "Inútil" - Ultraje a Rigor
O que falar dessa pérola? Para começar, justiça seja feita: poucas bandas tiveram letras tão sensacionais quanto o Ultraje. A obra-prima de Roger e companhia sempre será "a gente somos inútil" e os trechos "a gente faz trilho e não tem trem pra botar/ a gente faz filho e não sabe criar".
4) "Doméstica" - Eduardo Dussek
Mais conhecido por cantar "Rock da Cachorra", escrita pelo Léo Jaime, o inigualável Eduardo Dussek brindou os anos 80 com a saga da doméstica que, depois de passar um tempo na prisão por culpa da patroa, casa com um alemão e tem sua vingança quando contrata uma empregada loirinha.
5) "Família" - Titãs
Eu pegava o disco do meu tio e quase furava essa faixa de tanto que ouvia. A letra descreve o dia-a-dia de uma família, e é impossível não se identificar. "Mas quando o bebê fica doente/ procura uma farmácia de plantão/ O choro do nenê é estridente/ assim não dá pra ver televisão".
6) "Taca a Mãe Pra Ver se Quica" - Dr. Silvana
"Tacaram uma pedra no meu telhado/ não sei qual o vizinho que comigo implica/ Olhei lá pra cima muito irritado/ e disse taca a tua mãe pra ver se quica". O engraçado é que nessa pérola do Dr. Silvana o vizinho realmente joga a mulher no meio da sala do cara. E, o pior: a velha não quicou.
7) "Melô do Marinheiro" - Paralamas do Sucesso
"Entrei de gaiato no navio"... Acho que essa música foi a que mais me ensinou palavras novas na infância: "gaiato" foi uma, assim como "proa", "timão" e "convés". Fora que é uma das letras que mais tem virunduns para mim, e até hoje não consigo cantar a parte das cidades corretamente.
8) "Lágrimas de Crocodilo" - Jõao Penca
Essa é a tal que tem o enigmático trecho "No meio do deserto/ encontrei a sua irmã/ Parecia um tigre/ comendo uma maçã". Como é que é? Não importa. O legal era que a música dos Miquinhos, uma banda divertida composta por três malucos, fazia até pedra dançar quando era tocada.
9) "Olhar 43" - RPM
Antes que alguém bata em mim, explicarei. Você conhece outra música que juntou 10 versos que não querem dizer nada? Acompanhe: "Pois acabou/ não vou rimar/ coisa nenhuma/ agora vai/ vamos sair/ que eu já não quero / nem saber/ se vai caber/ ou vão me censurar/ será".
10) "Uma Barata Chamada Kafka" - Inimigos do Rei
Favorita absoluta! A letra da barata é muito boa. "Ofereci a ela um disco dos Sex Pistols/ Ofereci a ela uma batida de limão/ Perguntei se ela gostava dos Beatles/ Perguntei se ela era de escorpião". E de pensar que um dos integrantes do trio hoje atende pelo nome de Paulinho Moska...