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O Dia da Verdade Antes de qualquer coisa, preciso dizer que eu me encontro num estado de tranqüilidade profunda, bom humor e felicidade. O texto que segue não foi escrito num momento de ódio – e, nesse caso, ninguém vai poder dizer que minha idéia advém de uma explosão de revolta. A coisa é bem simples: eu quero instituir o Dia da Verdade. Chega de ficar inventando histórias, de tentar agradar a todos, de fazer ou dizer coisas só porque a sociedade nos cobra educação, irmãos!!! O negócio é ir no nervo das questões, sem rodeio ou nhénhénhé. O mais preocupante é pensar no que aconteceria nesse dia... Suspeito do pior: no dia em que nós decidirmos falar o que realmente pensamos sobre todas as coisas, todas elas, tenho certeza que nossas vidas vão vir abaixo. Vamos perder maridos e namorados, os amigos vão sumir, o patrão vai dar o bilhete azul no emprego e é possível até que o banco bloqueie nossa grana e nos expulse do quadro de clientes. Acham exagero? Ah, tá. Então me diz: se a sua garota ou o seu rapaz perguntar com um tom de voz doce e meiguinho “essa roupa ficou bem em mim” e você responder “o espantalho do mágico de Oz era mais ajeitado”, a cena vai acabar em sorriso? Não, não vai. É isso... quem quer conservar o relacionamento tem que dizer só uma meia-verdade. Chato pacas. Agora imagina se o seu chefe, como faz o meu todo dia, te perguntar “o que você está fazendo?”. Vai ficar bem dizer “nada... e olha que hoje eu ainda cheguei atrasada. Mas assim que eu voltar do almoço e enrolar mais uma horinha, é capaz que dê vontade de fazer alguma coisa de tarde. Ou talvez não dê...” Olha, sinceridade é menos usada em escritório que aqueles extratores de grampos. Acontece o mesmo com família e com amigos. Seria muito bom se a gente pudesse apenas dizer “eu não quero sair hoje, cansei das suas histórias, sabe?” ou “mas porque, diabos, você não manda esse seu namorado catar coquinho? Ele é um imbecil mesmo”. Mas não, sempre temos que usar diplomacia. Tudo bem pra mim, mas algumas vezes cansa. No Dia da Verdade, também vou ser obrigada a dizer para as moças que oferecem cartões de crédito pelo telefone que eu tenho dinheiro, mas não vou adquirir um simplesmente porque eu não nasci ontem e sei que ali tem rolo. E possivelmente vou contar pra uma ou outra criança que Papai Noel não existe, que menos de 0,001% das pessoas consegue se tornar astronauta e que a Xuxa ganhou fama fazendo um filme, digamos... pornô. E agora acabo de pensar numa coisa horrível... Talvez o Dia da Verdade seja mais chato ainda do que ter que pegar leve nas respostas verdadeiras... Ah, melhor assim. Eu não ia mesmo gostar de ser uma garota isolada numa caverna. |
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