segunda-feira, 13 de outubro de 2003

De corar até uma pedra

Podem me chamar de doida, mas eu gosto de passar raiva às vezes. Sabe, curtir voluntariamente um pouco de ódio? Mas nada grave. Só consigo fazer isso quando o objeto de adoração – ou detestação – é uma música ou programa. Um "produto cultural", por assim dizer.

Tudo começou nos idos dos anos 90, com "Chaco", aquela música infame do Tonho Matéria (?!). Era como coceira: eu não conseguia parar de escutar a pérola, só para ficar me debatendo de raiva. Os versinhos estúpidos "chaco, eu tô em cima, to embaixo, eh! mamãe!" rolando e eu curtindo a raiva daquilo ter alcançado as rádios. Que diabos!

Anos depois, a história se repete, mas com um pequeno deslocamento de mídia e de sentimento. Hoje, eu me vejo grudada diante da TV ao invés do rádio, e cheia de constrangimento ao invés de raiva, em duas ocasiões em especial: as narrações do Galvão Bueno e as performances do Rafa, da MTV, no Jornal da emissora que um dia foi musical.

No GP de Suzuka, quando Rubinho recebeu a bandeirada e aproximou o carro da beira da pista, onde a equipe da Ferrari acenava para ele, começou a levantar o braço com o punho cerrado. Aquele típico "yes!" da vitória, sabe?

E eis que Galvão me saca da frase: "olha lá o Rubinho, fazendo sinal para a equipe, como quem diz ‘eu disse para vocês’, ‘deixa comigo!’". Meu Deus, que embaraçoso! Se ele dissesse: "olha lá o Rubinho, fazendo sinal de maquinista do trem" ia ficar bem melhor. De onde ele tira essas coisas?

Logo na seqüência, migrei para a MTV. No ar, as reprises dos Jornais da semana. E lá está ele, Rafa, na sua performance de quinta-feira. Frases soltas como "Eu... não sei... eles... não sabem... mas não importa... correm... quem disse... que eu... não sou" e por aí afora são ditas pelo garoto sem o menor pudor, enquanto cenas de um videoclipe qualquer rolam no cromaquí.

Se o efeito final já é terrível, imagina ver esse menino no estúdio, onde o fundo para o qual ele fica olhando de vez em quando não passa de uma lona verde? Tsc, tsc, tsc... Pobre do câmera.

Que vergonha. Assim meu coraçãozinho não agüenta – e olha que, como disse, eu me submeto voluntariamente a esses constrangimentos. Tive de enfiar a cabeça por entre as almofadas e, para não ter pesadelos à noite, tomar uma boa dose dos programas da Universal antes de ir para a cama. Com esses micos, pelo menos, eu estou acostumada.

Clara McFly às 06:42 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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