terça-feira, 7 de outubro de 2003

Engraçado pra caramba

Para quem tem menos de 20 e poucos, já explico o título: "engraçado pra caramba" era o bordão do índio Cleverson, personagem do Luiz Fernando Guimarães numa das novelinhas-paródia da saudosa "TV Pirata".

Assim como aquela trupe de roteiristas, atores e diretor (Guel Arraes, sempre ele!) tinha um senso de humor de proporções gigantescas para a TV, o povo da música também nunca deixou por menos.

Algumas pérolas do cancioneiro brasileiro são verdadeiras piadas, contadas em versos impagáveis. Isso, é claro, sem contar bandas especialmente voltadas para o humor, como o Premê e o Joelho.

A modesta seleção que segue revela algumas das minhas músicas engraçadas favoritas. Os escolhidos eram bandas e artistas "normais" (ou quase isso), mais ou menos "sérios", mas nunca especializados em sátiras, que de repente sacaram de seu repertório as canções listadas abaixo, de fazer chorar de rir – ou no mínimo deixar escapar uma gargalhada – qualquer um com um mínimo de bom-humor.

Quem ri por último...

5. Conquistador Barato, Léo Jaime
O rockabilly, com direito a corinho de vozes e tudo, conta a história de um paquerador que é especialista em se dar mal. Abertura da novela "Bambolê", tinha os insuperáveis versos "eu sei que um dia desses eu ainda vou em cana/ porque eu mando mais torpedos que a marinha americana". Isso sem contar o refrão com "eu queimo o meu filme, eu enfio o pé na lama/ eu sujo o meu nome e ainda pioro a minha fama", de uma sinceridade invejável. Léo é rei.

4. Rubens, Cássia Eller
Pouco conhecida, a música do Premê cantada por Cassião no seu primeiro álbum usa de uma ingenuidade maliciosa sem tamanho para contar a confissão de um amigo que é apaixonado por outro, mas vive a maior dúvida se sai do armário ou não. "Rubens, não dá! A gente é homem, o povo vai estranhar" e "a sociedade não gosta, o pessoal acha estranho/ nós dois brincando de médico, nós dois com esse tamanho" dão o tom da brincadeira.

3. Maria Fumaça, Kleiton e Kledir
Antes de me atirar latinhas por listar uma música da dupla brega-pop dos 80, ouça com atenção essa canção, com a saga de um homem que pega um trem para chegar ao próprio casamento. O problema é que a tranqueira da maria fumaça é capaz de perder numa corrida com uma tartaruga, o que deixa o noivo com medo. Afinal, como ele mesmo diz, "o padre é louco e bota outro em meu lugar". Enquanto reclama da velocidade do ferro-velho, o cantor vai falando da noiva, e de como a mãe dela avisou: "É virgem, só que morou no Rio" (?!). Arrã.

2. Uma Barata Chamada Kafka, Inimigos do Rei
Simplesmente genial, a música fala de um encontro entre um homem e uma barata – que começam a conversar enquanto comem pudim. Como se não bastasse, a cascuda ainda tem todas as características do humano que topou com ela: gosta dos Beatles, de batida de limão e é do signo de escorpião (?!). Fora que ela gosta de ficar doidona com detefon e baygon. O trocadilho "vem cá ficar comigo" com a sonoridade de Kafka, autor do clássico "A Metamorfose" (que trata do drama de um homem que virou barata, mas a sério) tornou a canção unanimidade entre as Garotas.

1. Samba do Bixiga, Adoniran Barbosa
Sêo Adoniran fazia qualquer coisa ficar pitorescamente, genuinamente engraçada. Até a triste história da "Iracema", que morreu atropelada na avenida São João. Mas essa aqui é, na minha modesta opinião, a melhor desse mestre. A turma vai para um samba numa pizzaria. De repente, começa uma briga e, escondidos debaixo da mesa, tudo o que eles vêem é disco de pizza voando para lá e para cá. No final, chega a polícia, que trata de explicar: "calma, pessoar, a situação aqui tá ‘cínica’. Os mais pior vai pras Crínicas". Precisa dizer mais?

adoniran.jpg
Imagina esse velhinho
debaixo da mesa,
numa pizzaria do Bixiga...
Clara McFly às 06:18 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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