segunda-feira, 6 de outubro de 2003

Três coisas que não entendo em você, McFly

Pensando bem, do alto desses 25 anos, não há nada de que eu me arrependa profunda e sinceramente. Mas tem um punhado de coisas que não entendo – ou simplesmente não consigo me lembrar direito – porque eu fiz.

Uma delas é ter ido ao Ruffles Reggae. Eu nem me lembro bem quais eram as atrações desse festival da batata frita e do ritmo jamaicano. Só me recordo que tinha Inner Circle – e, por Deus, eu sempre achei Inner Circle um saco, com aquele alalalalong interminável.

O fato é que eu queria tanto ir ao show – e não era só eu, visto que os ingressos se esgotaram rapidinho – que, ao saber que as entradas tinham acabado, fiquei ligando na 89 para ganhar um par de tíquetes.

E ganhei (por que isso não acontece quando eu penso que quero muito ganhar na loteria?). E armei o maior esquema para poder ir (era de dia de semana, então tivemos que pegar minha irmã no meio do caminho para chegarmos a tempo). E fui. Pode?

Outra coisa do meu passado inexplicável: certa feita, sem casa para ficarmos na praia durante Carnaval, decidimos fazer um bate-e-volta bem farofeiro, só para passar a noite num bar do litoral.

Pior que isso, não havia nenhum cristão que tivesse carro disposto a cometer essa loucura. Ou melhor, quase nenhum. O Dener (sempre ele!), que tinha acabado de tirar carta e ainda não acertava sequer ligar a seta para o lugar certo, topou. Enfiamos seis pessoas no Gigante Branco, o Gol 1000 dele (que ainda vive). E lá fomos, felizes, inconseqüentes e um pouco apertados, rumo ao mar.

No meio da noite, Carnaval e músicas estúpidas rolando a toda, eis que começa a pegar fogo num carro no estacionamento do bar – que estava, naturalmente, lotado. Para evitar que o Gigante virasse pó de chapas metálicas numa cadeia de explosões, o Dener saiu com o carro por um barranco. E, pimba!, o carter do possante estropiou-se.

Até então, eu nem sabia que havia um componente automotivo xará do médico de "E.R.". Mas tem, e o danado precisa estar inteiro para não deixar o óleo do carro escapar. Com a peça estourada, o pobre Gigante começou a vazar.

Para remediar a situação, compramos durepóxi e moldamos uma verdadeira colméia de massa no tal do carter, para segurar o vazamento. Isto posto, naturalmente deveríamos voltar para Sum Paulo, certo?

Mas seis cérebros não foram capazes de tomar essa resolução razoável. Decidimos esticar a viagem e migrar rumo ao litoral sul do Estado, na casa de uma amiga onde estavam mais alguns dos manés que compõem a minha improvável turma de amigos. Por que, Deus, por quê?

Por fim, volto a defender que é uma crueldade e uma insensatez fazer uma pessoa decidir o que quer ser para o resto da vida aos 17 ou 18 anos. E dessa crueldade vem a última coisa inexplicável da minha biografia até agora: ter feito jornalismo.

Não que eu me arrependa. Ok, talvez um pouco mais do que ter ido ao Ruffles Reggae ou do que ter viajado mais tempo do que o necessário num carro com uma bola de durepóxi embaixo.

Mas eu fiz jornalismo pela razão errada. Gosto de escrever e, do alto dos meus 17, achava que quem gosta de escrever deve fazer jornalismo. Não deve nada; deve fazer Letras. Ou comprar um carro e viajar.

Não que me atrapalhe. Muito pelo contrário: só conheci duas garotas geniais e hoje tenho um site fofucho, cheio de leitores idem, por causa do jornalismo. E escrever também faz parte disso. Mas, embora a carreira esteja longe de ser o que eu imaginava, tem nada não. Como muita gente que decide essas coisas aos 17, sempre há tempo para mudar.

Entre as carreiras que ando considerando para o resto da minha vida, estão a de taxiadora de aviões, narradora de trailers de cinema ou médica de seriado norte-americano, como o Carter. Alguém aí sabe de uma vaguinha no "E.R."?

Clara McFly às 06:46 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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