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Vou ali e já venho Eu já morei em cinco casas - e estou partindo para a sexta, diferente de todas as outras, pois fui eu quem escolhi, ao lado do namorido, todas as coisas que estão ali dentro. Minha primeira casa foi o apartamento onde meus pais moraram logo depois do casamento deles. Pouco tempo depois, nos mudamos para a casa da minha avó e, assim sendo, tenho memória alguma do apê. A casa da minha avó era tão legal que merece um texto à parte. Prometo que sai, dia desses. Mas já adianto que lá haviam todas essas coisas de casa de avó: chão de ladrilhos vermelhos, pretos e amarelos, quebradinhos; vasos de concreto com babosa e erva cidreira para o chá; roseira no jardim; a máquina de costura; móveis velhos e um relógio despertador que fazia um tic-tac mais alto que os barulhos do mundo. Seguimos para a casa do bairro Assunção, minha primeira morada na terra da Hollywood brasileira. Foi o melhor lugar onde já vivi: era um sobrado que, para minhas proporções infantis, tinha uma parede lateral imensa. Tinha azulejos amarelos estampados na cozinha e uma forração marrom horrorosa na sala e nos quartos. E um vitrô na escada, debaixo do qual morava o Duduca, amigo invisível do meu irmão. No meu quarto, tinha dois beliches onde a gente brincava de navio e uma escrivaninha onde eu guardava toda a papelada com minha inventices. Dali, mudei para um bairro vizinho, numa casa enorme, que era adorável para receber amigos e tão espaçosa que não era difícil ficar sozinha ali, mesmo quando a família que habitava comigo contava seis pessoas. Mas dava um trabalhão para limpar… Por fim, mudei para o lugar simpático, parecido com uma casa de praia, onde vivo hoje. Mas só até hoje. A partir de amanhã, meu lar vai ser outro – e, pela primeira vez depois de tantas casas, com exatamente a minha cara. Passei sete meses montando, acabando, reformando e retocando minha nova casa. Tudo – ou quase tudo – lá tem algo de mim: as cores das paredes, diferentes em cada cômodo; a cortina de linho e botõezinhos de côco; os puxadores de garfo e faca das gavetas da cozinha. Isso sem contar minha peça absolutamente favorita de tudo que enfiei lá dentro – e olha que foi bastante coisa, pois não é à toa que minha conta bancária anda na cor do boi Garantido da festa de Parintins: o espelho de peixe. É um espelho com moldura branca, cheia de decalques multicoloridos de peixinhos. Sabe Deus porque, mas toda vez que olho para aquele espelho acho que há uma boa chance de eu ser muito feliz na minha nova casa, mesmo partilhando da compreensível sensação melancólica descrita por Vivi ao deixar a casa da mamãe. Afinal, vocês sabem, minha mãe é uma fada. E casa de mãe é casa de mãe. Mas é chegada a hora. Então, despeço-me de vocês com meu último texto escrito como uma senhorita. Quando eu voltar na segunda, já serei uma senhora (ui!). Agora, esperem aí que eu vou ali casar e já volto. |
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