quarta-feira, 17 de setembro de 2003

Não era bom, era uma droga

Tenho certeza que esse texto de hoje vai dividir opiniões e provocar uma avalanche de e-mails apoiadores e reclamões. Quer ver? É assim: ter sido a filha caçula da minha família foi um tremendo, um enorme, um gigantesco saco.

Daí vão vir os primogênitos e irmãos do meio em defesa da tese do “é nada, caçula é sempre o protegido”. Pode até ser, mas ó: não compensava. Podem chiar, resmungar, protestar, mas é isso mesmo. Ser minimamente protegida pela minha mãe não me valeu de absolutamente nada.

Ainda que ela me salvasse dia sim, dia também de apanhar dos meus irmãos, quase sempre era tarde demais. Só depois do terceiro ou quarto tapão é que minha santa mãe conseguia chegar em meu socorro. Os irmãos mais velhos e malvados sempre são rápidos nessas brigas de mão – e mamãe era ocupada demais.

Quer saber de mais sobre a vida de pobres crianças caçulas? Vá anotando:

Eles roubavam o último qualquer-coisa
O último miojo, o último yakult, o último pacote de bolacha... Qualquer artigo de comer que eu quisesse guardar para apreciar mais tarde acabava virando refeição dos meus irmãos muito antes. Não há direitos adquiridos sobre comida quando se trata do irmão mais novo: nós somos como o voto feminino na década de 20... não valemos um vintém furado.

Eu só dormia em sofá ou cama de armar
Viagem familiar sempre foi boa pedida – menos na hora de dormir. Não me lembro de uma vez sequer em que eu tenha ganho uma cama de gente para passar a noite em hotel ou casa de veraneio. Eles escolhiam primeiro o leito, tomavam posse e adivinha o que sobrava para mim? Melhor nem lembrar, que me dá dor nas costas.

Amarguei o meio do banco de trás por décadas
Não importa se era para pegar carona até a escola, rodar até a padaria ou viajar seis dias: eu NUNCA podia ir no banco da frente. Na verdade, era bem pior do que isso. Explico abaixo.

Janela? Não sei o que é isso
Ir nos cantos, em contato com a janela, observando a paisagem??? “Há, há, há”, é o que eu digo! Jamais tive esse prazer e privilégio. O meu lugar era o meio do banco de trás – calorento, apertado, onde só ficam confortáveis as pessoas que não possuem pernas – e questionar a posição não era permitido.

Meu uso do banheiro se resumia a 4.8 minutos
A regra era entrar, tomar banho, me secar, enrolar a toalha como paxá e sair rapidinho do local. Se quisesse me vestir ou pentear o cabelo, que fosse no quarto. Depois do tempo regulamentar, ficar no banheiro só seria justificado se eu estivesse doente. E, mesmo assim, só se a doença envolvesse botar os bofes pela boca.

Então ficamos assim: se você é caçula, parabéns, o mundo te fez mais forte e agora você está preparado para tudo. Se você não é... eu me recuso a responder um e-mail sequer de gente como você, seu torturador!

Fla Wonka às 02:56 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold