terça-feira, 16 de setembro de 2003

É permitido fumar

Eu fumo desde os 17 anos. Já sei que isso não é lá muito saudável, que vai me matar e coisa e tal. Por isso, dispenso os comentários dos antitabagistas de plantão. Até porque só tem uma coisa mais chata que fumante: antitabagistas.

Além do mais, sim, um dia eu vou morrer. Como todos. A diferença que o cigarro faz é mais na minha qualidade de vida do que nesse papo de "ah, você fuma! Vixi, vai morrer!".

O fato é que ainda não dispenso um cigarrinho bem fumado, acompanhado de um café, logo depois do almoço. Ou dar umas pitadas como a última coisa do dia, com uma xícara de chá ao lado, pensando um pouco sobre tudo – ou sobre nada.

Com toda essa minha experiência no ramo - e olha que perto de alguns aficcionados pelo tabaco eu sou uma principiante -, notei que a classe dos fumantes, tão perseguida ultimamente, compartilha de alguns códigos e brincadeiras.

Quem nunca viu aquelas camisetinhas feitas com maço de cigarro? Essa virou tão bunda que até quem não fuma faz. É uma pérola das conversas à mesa de bar, onde um cigarro puxa outro e, quando o maço acaba, é apanhado para essa reciclagem artística a título de distração das mãos.

Também tem aquela da cachoeira, minha favorita. A criação dessa deve ter demandado muitas horas de mesa de boteco, porque o troço é elaborado: descole o selo do maço e enrole o tal pedacinho de papel num canudo bem fino. Reserve (ih, virou receita!).

Depois, levante um bocadim o plástico da carteira (de cigarros, claro!) e apóie-a de ponta cabeça; abra um buraquinho com o dente ou com um fósforo quente no cantinho do plástico; encaixe o tubinho ali, metade para dentro do plástico e metade para fora e, depois dessa trabalheira toda, acenda a outra pontinha do canudo.

Tudo isso para uns quinze segundos do efeito cachoeira: a fumaça sai de dentro do tubinho de papel e escorre dentro do plástico. É um negócio lindo de se ver.

Há também os que aproveitam o interior do maço, aquele papel prateado que protege os cigarros. Dali saem florzinhas, dobraduras ou outra utilização de cunho ilegal.

Isso sem contar as simpatias, do tipo virar o primeiro cigarro do pacote, fazer um pedido e fumar o tal por último. Já adianto que se isso funcionasse, eu teria namorado o Jarbas nos meus áureos (mas nem tanto) tempos de colégio…

Já fiz de tudo isso, mas hoje me contento com algo bem mais prático – embora não menos criativo. Para economizar 25 centavos, compro maços ao invés de caixinhas e faço refil: retiro o plástico do pacotinho, rasgo com cuidado a parte de cima e enfio numa caixinha velhota, adquirida da última vez em que encontrei moedas sobrando debaixo do banco do carro.

E que atire a primeira pedra – ou o primeiro isqueiro – o fumante que nunca se utilizou disso!


Clara McFly às 06:26 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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