segunda-feira, 15 de setembro de 2003

Sabedoria de antigamente

Seu Justino, dona Diva e dona Helena. Como todos os outros de sua espécie, meus avós sempre foram pessoas engraçadas. Aposto que seu Josué, pai do meu pai que morreu antes de eu nascer, também era uma figura (até porque ele tinha um armazém, o que por si só já devia ser o máximo).

Acontece que quanto mais velhinhos eles ficam, mais os avós acumulam manias e reclamações que passam a ser tão utilizadas no cotidiano quanto expressões grudentas de novela das 8. E, nesse processo, eles acabam criando frases que servem para toda e qualquer ocasião, virando assim uma marca registrada de cada um. E frase de vó e vô é sempre uma pérola.

Seu Justino é um clássico familiar e não há palavras para descrevê-lo. Dona Diva continua firme e forte, mais doce que doce de batata doce. Dona Helena já não está mais por aqui, infelizmente. Acima de tudo o que são (ou foram), eu sempre vou me lembrar deles também por suas doses diárias de sabedoria dos tempos de antigamente.

"Esse ano vôou!" (ou ainda "O Natal já está aí!")
Pode ser no almoço de domingo, no trânsito, no supermecado. Pode ser para uma pessoa da família, um conhecido ou um completo estranho. Não dá para passar um dia sem que vô Justino solte essa, mesmo que estejamos em março - e bem longe do fim do ano.

"Quem será uma horas dessas?"
Toda vez que o telefone ou a campainha tocava em sua casa (ou na casa de qualquer outra pessoa, mas o vício de linguagem era mais forte), vó Nena fazia sua pergunta fatídica. Não importava se era meio-dia ou se alguém tinha marcado uma visita.

"Juízo, hein?"
Vó Diva não consegue terminar um telefonema ou outra conversa com filhos e netos apenas com um simples "tchau", como alguém normal costuma fazer. Até porque ela não é alguém normal - ela é uma avó. E seu desfecho especial de bate-papo, toda vez, é "juízo, hein?".

"Eu cantei essa bola!"
Se vô Justino for contrariado em sua opinião e mais tarde vê que estava certo, pronto. Daí sua frase clássica é utilizada centenas de vezes seguidas, só para mostrar que ele tinha cantado aquela bola antes. Caso o episódio aconteça no trânsito, não há por onde fugir.

"É mixo, não repara..."
Um must natalino, mas também acontece a cada aniversário. É só vó Diva entregar um presente (embrulhado no papel reciclado de anos anteriores) para que sejamos brindados com essa máxima. Também pode ser seguido por um "mas é de coração, viu?".

"Não dá para sair de casa sem gastar 10 reais!"
Vô que é vô sempre é meio ruim de finanças. E seu Justino não poderia ser diferente. Basta ele ir no mercado e pronto, lá vem a frase - que ficou tão arraigada na família que sempre que faço compra eu me lembro dela. Pena que nunca são 10 reais.

"Cuidado para não pegar friagem!"
Pode estar um calor dos infernos. Mas vó Diva sempre acha que tem um vento "encarnado" vindo de algum lugar obscuro. E quando o assunto é clima, blusa de lã vira "agasalho", cobertor vira "manta", casaco vira "japona". Não é uma delícia?

"Essa é a última novela que eu assisto!"
Vó Nena falava isso todos os dias, com os olhos fixos na telinha. Reclamava, xingava a atriz, conversava sozinha, chorava. Não havia quem conseguisse desviar sua atenção. Claro que na próxima novela lá estava ela assistindo novamente. E, claro, repetindo sua pérola.

"A moça da TV falou que vai esfriar..."
Para vó Diva, as jornalistas e os repórteres não possuem nome (nem profissão). Eles são apenas "a moça" ou "o moço" da TV. E quando um deles fala que vem uma frente fria por aí, isso vira o assunto do dia. Mas antes ela resgata o gorro do armário e veste, só para prevenir.

"Vamos embora que hora é hora...
... e hora não espera ninguém"! Vô Justino está sempre correndo, impaciente, atrasado para alguma coisa que nem ele sabe o que é. Regar a horta, talvez. Ou alimentar os passarinhos. Afinal de contas, que tipo de cotidiano atarefado e cheio de horários tem um aposentado?

Só os avós sabem.


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Meus textos e minhas respostas aos e-mails estão e continuarão atrasados um pouquinho, por culpa da linha telefônica do novo ap. Ou melhor, pela falta dela. Ninguém vai me colocar de castigo, vai?

Vivi Griswold às 10:50 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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