sexta-feira, 12 de setembro de 2003

Adeus à casa da mamãe

Pronto. O grande dia se aproxima. A partir de amanhã, "minha casa" não será mais este apartamento colorido e cheio de gatos - será outro apartamento colorido e (chuinf) sem gato algum. A partir de amanhã, "minha casa" vai virar "a casa da minha mãe". A partir de amanhã, eu começo a construir a história da minha nova e verdadeira casinha, com minhas coisas e meu amor.

A questão é que ainda não assimilei a mudança. Sinto que tenho dois lares, pois meus pertences se dividem entre aqui e lá. Já não posso dizer como será quando a última peça de roupa deixar este lugar, ou quando minha irmã se alojar neste quarto, mudar os móveis de posição e pintar as paredes de pink e preto. Daí provavelmente vou chorar escondido um pouquinho. E eu que achava que essa história de cordão umbilical invisível era balela.

Mamãe me falou que esta casa sempre será minha. E como ela tem razão em tudo, vou acreditar. Mas não consigo deixar de sentir saudades antecipadas de certas coisas que estou deixando para trás...

10) A varanda
O enorme espaço ensolarado cheio de plantas. Tá, não é enorme. E as plantas estão meio comidas. E de vez em quando a roupa no varal esconde o sol. Mesmo assim, adoro ficar de bobeira sentada no banco, descalça, jogando bolinhas ou gravetos para os bichanos. Ê tempo bem gasto.

9) O computador
Está para nascer um computador mais capenga. Não passa uma semana sem ele dar pau, apagar, jogar meus arquivos no breu. E o monitor tem mais fantasmas do que a televisão velha da minha avó. Mas foi lá que o Garotas nasceu, então ele é histórico. Pelo menos para mim.

8) A TV por assinatura
O cabo chegou em Oz outro dia. Portanto aqui temos DirecTV, a TV por assinatura dos isolados. E não há imagem melhor, além de programação na tela e controle universal. Meu apartamento será Net. Sem E!, A&E Mundo, Retrô e a Debbie Travis. Dá para puxar um fio daqui para Pinheiros?

7) As visitas do papai
A cada sexta-feira meu pai vem para buscar algum dos meus irmãos para dormir na casa dele, e eu posso dar pelo menos um abraço apertado naquela figura. Isso é mais sagrado do que assistir a "Changing Rooms" às quintas. Papi, vai me visitar de vez em quando? Eu ouvi toda sexta?

6) Os irmãos
O que seria da vida dos irmãos mais velhos se não fosse a saudável mania de encher o saco dos mais novos? Ok, eles já são grandinhos e, ao invés de chorarem, tentam me bater. E conseguem, porque sou miúda. Mas vale a pena um tapinha aqui e acolá, só pelo gostinho de ser pentelha.

5) O quarto
Já falei do meu quarto aqui. Ele é minúsculo, tem paredes amarelas e lilases, uma luminária peluda rosa, um despertador barulhento, um pôster de "O Beijo", do Klimt. E muitos livros, muitas fotos, muitas almofadas, muitas roupas fora do lugar e muitos sapatos debaixo da cama de solteiro.

4) A comida
É clichê danado dizer que a comida da mamãe é a melhor do mundo. Mas vou insistir nisso, pois a chefe da família também é cozinheira de mão cheia. Agora ela está numa fase natureba, mas seu purê de batatas e sua couve-flor gratinada e seu creme de milho são simplesmente divinos.

3) O barulho
Quando há sangue italiano correndo pelas veias, é difícil manter o volume baixo. Aqui a gente fala alto, ri alto e grita mais alto ainda. Fora o telefone tocando a cada segundo, a TV, minha irmã ouvindo música, meu irmão jogando video-game, a bomba do aquário que não pára...

2) Os gatos
Começou com um persinha branco. Hoje a família gato cresceu e eu não consigo imaginar minha vida longe dela. Eles são meus companheirinhos queridos. Todos dormem comigo e, apesar de acordar toda hora, eu adoro. Agora eles me olham com cara de quem sabe o que está acontecendo.

1) A mamãe
Ela é linda, jovem, loira e tem um corpinho de dar inveja a muita menininha. Minha mãe não tem lá muita cara de mãe, mas ela sabe ser a mãezona de que eu preciso a todo instante. Não tem colo mais gostoso, nem abraço mais gostoso. E eu ainda quero ser ela quando crescer. Posso, mamãe?

Droga, por que eu sou essa manteiga aviação derretida?

Vivi Griswold às 10:54 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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