terça-feira, 9 de setembro de 2003

Menina palitinho

Desde que abri a boca para dar meu primeiro choro até o presente momento, engordei apenas 38 quilos. Vinte e seis anos se passaram e eu acumulei no meu corpo o equivalente a menos de um saco de cimento! Fora que daqui a alguns anos terei mais idade do que peso. Portanto, posso falar uma coisa com conhecimento de causa: ser magrela também enche o saco.

E o pior não é ganhar apelidos meigos como Olívia Palito ou ouvir expressões fofas como "quem gosta de osso é cachorro", mas ser alvo de olhares de ódio quando digo que daria boas vindas a algumas gramas a mais na balança.

Sempre ouvi da minha família que eu precisava engordar. Minha avó era a mais preocupada, e só faltava empurrar comida em mim à força porque achava que eu era muito fraquinha (ainda que a fraquinha aqui nunca tenha ficado doente, ao contrário do primo gordinho). O que eu tomava de Biotônico Fontoura! E até tive de passar por simpatias e benzedeiras, só para dar uma idéia.

Hoje a neura passou, mas as piadinhas permaneceram. Não posso ir na casa da minha avó e aceitar um pedaço de bolo sem ouvir um "cuidado que assim você vai engordar, hein?" ou "a Vivi é que é visita boa, não dá prejuízo!". É sagrado.

O problema, no entanto, encontra-se fora do círculo familiar. As pessoas olham para quem é magra com um certo desdém que machuca, viu? Ninguém segura um comentário quanto ao pouco peso, sendo que se eu fosse gorda isso seria politicamente incorreto. Mas como sou magrela e por consequência sortuda e por consequência preciso ser castigada pelos céus, daí tá liberado o veneno.

E não é fácil encontrar roupas tamanho 36. Não é possível doar sangue. Não dá para ganhar no braço-de-ferro. Não é moleza viver num país que gosta de bundão. Não é bonito usar relógio apertado até o último buraquinho. Não há charme numa bota de cano alto folgada na batata da perna.

Mas como tudo tem um lado bom (menos o disco do Wando, claro), posso esquecer de controlar o refrigerante e a sobremesa. E já faz tempo que deixei de reparar naquele ponteirinho da balança. Se nem o empenho de Dona Diva surtiu efeito, meu caso deve ser mesmo complicado. E eu tenho mais é que aceitar esses dois pulsos de gafanhoto e essa mão de menina palitinho.

palito.JPG
Vivi Griswold às 08:36 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold