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Vila Sem Graça Moro em um bairro paulistano bem residencial, arborizado, com passarinhos cantantes, longe o suficiente de avenidas movimentadas. Eu, por assim dizer, não teria muito que reclamar dele, não. Mas tem uma coisa que me deixa injuriada: em termos de estabelecimentos comerciais divertidos, meu bairro é um fracasso. Se tem uma coisa que me faz sentir ridícula é entrar num supermercado de 5 mil metros quadrados para comprar UM saco de pão de fôrma. E isso acontece toda hora, visto que a região onde eu moro é circundada por três mega-ultra-hiper-estabelecimentos como esse. Se eu tiver vontade de comer tomate com sal? Não vou na quitanda a pé, compro um saquinho com dois deles e volto para casa contente. Eu tenho que pegar o carro, rodar vários minutos, estacionar, entrar no mercadão, apanhar os tomates, pegar a fila do caixa com 20 pessoas, esperar meia hora e pronto. A essa altura, já estou com humor canino, preparada para jogar os tomates pela janela. E não é só a quitanda que me faz falta. Não encontro mais uma senhora simpática que costure roupas, um japonês bacana que tenha uma tinturaria de fato, uma garota legal que mantenha uma loja de doces e salgados. Se a barra da calça descostura, lá vou eu pagar uma fábula para fazer o reparo... no shopping! Um horror. Não sei mais o que é lavanderia comum, onde posso pedir para tingir blusas velhas de vermelho-chinês – hoje só existem aquelas fraqueadas, como jeito de "McDonald's que lava roupa". Matar a fome também não tem a mínima graça nesse meu bairro. Sim, a padaria "Flor Dengosa da Rainha" (ou coisa que o valha, que nome de padaria é tudo montado com palavras assim) é boazinha, mas não supre minha febre. Eu gostava mesmo era de ir na bomboniére e pedir um saquinho de chocolates, um saquinho de bolinhas de amendoim e duas paçocas. Tudo sem marca, do genérico, mas muito gostoso. Mas sem dúvida alguma a pior perda que os bairros de hoje sofreram foi o completo sumiço das moças do suquinho. Em cada lugar esse hit do verão tinha um nome: suquinho, gelinho, geladinho, sacolé, chupe-chupe... Não importa como chamava, era aquele mesmo saco plástico pequenino enchido com líquidos de sabores variados. Tinha até um azul, que diziam ser de "anis". Uma tranqueira deliciosa! Em geral as moças vendiam esse negócio para complementar renda – e, de quebra, se tornar a pessoa mais famosa e adorada pelas crianças da vizinhança. Acho que vou começar a fabricar suquinho só para animar um pouco aquele bairro. Fla Wonka às 01:00 PM |
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