terça-feira, 26 de agosto de 2003

Bonito-tó, macaxeira, mocotó

Mário de Andrade, o ilustre escritor, me fez um grande favor. Aliás, fez um inestimável favor a todos que gostam de ler. O literato decidiu não se conformar com a masturbação mental das elites intelectuais como material de um livro, saiu pelo Brasilzão afora e, na volta, sacou de Macunaíma, este primor da literatura.

Depois desse livro, Mário podia virar uma espécie de J.D. Salinger: desaparecer no mundo, talvez na terra das amazonas-icamiabas (alguém já procurou o Salinger por lá, a propósito?), sem deixar rastro, rosto ou fotografia. Macu é obra de uma vida – ou de mais.

A saga do herói é tecida sobre um concentrado de manifestações folclóricas do país inteiro. Pode ser considerado um bloquinho concentrado da nossa cultura, sem ser um isso de chato ou pretensioso. Mário viajou anos pesquisando o folclore nacional e eu imagino que ele tenha se divertido muito-muitíssimo, para conceber um livro tão engraçado.

Por isso, sem mais delongas, seguem dez razões para a classificação de Macunaíma como um dos melhores livros da literatura brazuca. O livro tem...

1. ... a excelente máxima "pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são!"

2. ... um vilão chamado Venceslau Pietro Pietra (?!), que também é o gigante comedor de gente Piaimã. Como se não bastasse, ele mora na rua Maranhão.

3. ... a hilária passagem em que o herói é enganado por um macaco e acaba dando uma pedrada nos próprios colhões (chamados de toaliquiçus), achando que aquilo era de comer.

4. ... a história do tico-tico e do chupim. O primeiro passarinho conseguia comida, quando o maiorzão se aproximava e tomava o alimento do outro. Inconformado com a injustiça, Macu, que observava a cena, vai lá e dá uma paulada para matar o... tico-tiquinho.

5. ... o dote de "Oropa, França e Bahia" oferecido por Vei, a Sol, para o herói, caso ele se casasse com uma de suas filhas.

6. ... uma explicação bem mais divertida para o aparecimento da Lua: o satélite seria a cabeça da boiúna Capei, que se soltou do corpo, perseguiu Macu e, não alcançando-o, subiu para o céu comendo teia de aranha gelada. Por isso ficou muito gorducha e branca.

7. ... uma personagem feminina forte, chamada Ci, por quem Macunaíma se apaixona perdidamente. Ela é a rainha das amazonas (ou icamiabas).
8. ... um título com o aposto mais bem-sacado que já vi: "o herói sem nenhum caráter", o que não deixa de ser uma síntese da cultura brazuca, tão cheia de misturas que não tem apenas um caráter específico, mas muitos.

9. ... a passagem da macumba, em que Mario cita vários companheiros modernistas e chama Manuel Bandeira de "Manu Bandeira". Pode?! Pode, para quem chamava o grande pesquisador folclórico Câmara Cascudo de "Cascudinho"...

10. ... termina com a frase "Tem mais não". Simples assim.

Clara McFly às 06:36 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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