sexta-feira, 15 de agosto de 2003

Vovó Emília, vovó Ondina

Diz a sabedoria popular que vó é “mãe com açúcar”. Bom, a minha mãe é o maior doce que existe no planeta (e cabe aqui dizer que, se eu não fosse filha dela, preferia ter nascido numa chocadeira). Então, dessa forma, vocês fazem idéia do quanto as minhas avós são açucaradas?

Eu conto. Elas fizeram da minha infância uma diversão sem fim. Vovó Ondina, mãe da minha mãe, batia corda como ninguém, ensinou a jogar bilboquê – quem quiser explicações sobre o que é isso, manda e-mail –, e era uma mestra da preparação de pastéis.

Não, não, veja bem: ela não COMPRAVA massa na feira... Ela FAZIA a massa, abria no cilindro, preparava o recheio e entupia todos os netos com esse quitute fantástico.

Vovó Emília, mãe do meu pai, morava mais perto e não se envolvia muito nas brincadeiras. Na verdade, ela ficava é bem possessa quando a gente puxava folhinhas das plantas do jardim pra brincar de comidinha. Mas, em compensação: ela faz a canja mais deliciosa da galáxia, ela tem um relógio-cuco na cozinha que é meu objeto predileto em todo o mundo, ela tem uma risada contagiante, ela conta a história de terror que apavorou a minha meninice...

Vó, aliás, é especialista nisso: contar histórias. As minhas eram mais que especialistas, eram PhD em “historiologia para crianças”. A preferida da vovó Ondina era sobre um homem que foi preso depois de ter ficado louco.

Daí, no cárcere, ele encontrou uma réstia de alho. Daí o cara, bem malucão, passou a comer os dentes de alho assim, como se fosse batata chips. E daí ele ficou curado da doideira! Eu também adorava esse conto, apesar de não fazer o menor sentido – e apesar de eu saber hoje que, droga, o máximo que uma pessoa ganharia comendo tanto alho seria um bafo eterno...

A história mais famosa da vovó Emília era bem mais apavorante. Tratava-se da saga da Laurona, uma mulher que morava na mesma vila que minha vó quando ela era pequena. Laurona era meio mulher-macho, andava toda desmilingüida e carregava uma garrucha consigo. A tal, ainda por cima, bebia várias a mais e rodava pela área aos berros, em plena noite. Vovó tinha pânico dela. E eu, depois de ouvir tantas sobre a Laurona, também.

Já faz um ano que a vovó Ondina decidiu ir viver lá no mundo das pessoas especiais, e eu morro de saudade dela absolutamente todos os dias. A vó Emília, aos quase 84 aninhos, continua adorável como sempre – apesar de ter dado um baita susto em todos nós há três semanas.

Tenho uma tática perfeita para me livrar dos momentos de tristeza: ligar para a vovó e bater um papo de dez minutos. Ela fica feliz com a minha lembrança e eu com a felicidade dela. A propósito: você não quer ligar pra sua vó hoje? Garanto que vai ela vai dar uma bela açucarada no seu dia.

Fla Wonka às 02:04 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold