Assisto tanto a "Detetives Médicos" e seus similares do Discovery Channel ("Os Novos Detetives" e "Os Arquivos do FBI"), além das versões fictícias do tema ("CSI" e "CSI Miami", da Sony), que das duas uma: eu podia virar polícia forense ou cometer o crime perfeito.
Caso eu fosse uma menina má e me decidisse pela segunda opção, planejaria o crime tendo à mente os seguintes lembretes – todos aprendidos com a freqüente e voluntária exposição aos programas de TV supracitados:
1. Não fazer uma poça de sangue durante o "serviço"
Depois, não adianta lavar: eles têm luminol, uma química capaz de fazer qualquer resquício de sangue, diluído em proporção de até uma parte em um milhão, brilhar no escuro.
2. Não comparecer ao local do "trabalho" com um poncho peludo
Os danados têm olhos de lince: catam qualquer pelinho na cena, chamam aquilo de fibra e batem com as achadas na sua casa ou em qualquer lugar pelo qual você tenha passado, mesmo que de longe e há uns cinco anos.
3. Não sair comprando tudo e todos com os cartões de crédito que você acabou de surrupiar da vítima
Isso já é chamar os investigadores de idiotas: eles seguem sua trilha de lojas, mostram algumas fotos aos vendedores e te acham num motel barato de beira de estrada.
4. Não jogar a arma do crime num rio ou pântano
Invariavelmente, uma boa alma acaba indo pescar ou catar sapos e acaba por encontrar a dita. Na delega, eles constatam que algumas fibras ainda estão lá. Nesse caso, volte ao item número 2.
5. Não enterrar os restos mortais no quintal, no porão ou perto de um rio
Nos dois primeiros casos, além de macabro, o ato pode ser facilmente detectado por um radar. No segundo, bem, os leitos dos rios costumam secar ou subir e levam seu esconderijo por água abaixo (sem trocadilho).
6. Não largar o esqueleto todo no mesmo lugar
Só com os ossos, eles determinam o sexo, a raça e a idade da vítima, e ainda são capazes de fazer uma reconstituição facial com massinha e olhos de vidro. Mesmo se não te pegarem, aquela cara de mentira estará estampada em todos os jornais e, ui, dá medo!
7. Se você pretende matar seu cônjuge, não fazer um seguro de vida milionário em nome dele poucos meses antes
Isso levará os investigadores a fichá-lo imediatamente como suspeito. Será que essas pessoas nunca jogaram Scotland Yard? Uma das peças-chave para decifrar um crime é o motivo, por Deus!
8. Não demonstrar seu total e completo ódio pela vítima, se você a conhece
Os investigadores fazem perguntas, sabe?, e não só para você. Eles também conversam com os vizinhos, amigos, familiares e transeuntes em geral.
9. Não utilizar, como meio de transporte até a cena, um carro muito exclusivo
Uma Ferrari feita sob encomenda ou uma pick up ultra-multi-mega-power-fuel-injection-hi-tech-de-luxe, cujo modelo só existem três na cidade, deixam marcas de pneu que não são iguais a de um Corsa 1000.
10. Não deixar a vítima te arranhar ou puxar seu cabelo
Isso entrega pistas fresquinhas e irrefutáveis aos moços de colete. Seu DNA fica ali, é posto em saquinhos e vira "evidência". E pouco importa se você usou Grecin 2000, porque eles sacam quando o cabelo tem tintura.
Depois de tudo isso, é fácil concluir que não existe crime perfeito. Existe é polícia imperfeita. Mas com Grissom e sua turma à solta, eu não me arriscaria...